O que fazer num domingo à tarde

domingo, fevereiro 27, 2011




Uma receita antiga para a marmelada
"A marmelada anda muito esquecida. Mesmo sexualmente. Hoje em dia os casais curtem e enrolam-se e, quando querem falar da marmelada como gente grande chamam-lhe preliminares.
Preliminares. Como se seguissem os apuramentos, as eliminatórias e a taça. Por uma questão de coerência, mais valia chamar finalíssima ao sexo. 

(...)
Before play é antes da brincadeira, como se a marmelada não fosse já uma bela brincadeira.
Antes da brincadeira ou do jogo (ou da peça teatral), o que é que se faz? Corta-se a relva, armam-se as balizas, equipam-se os jogadores. Como se podem comparar estas tarefas monótonas com a marmelada? (...) Discute-se muito se há marmelada antes do beijo. Claro que há. Há marmelada verbal, só com palavras e silêncios, que pode ser da grossa. Há marmelada visual, com os olhos e sobrancelhas; marmelada vestuária, com a roupa e a maneira de pô-la ou dispô-la. Há muita boa marmelada, tanto da fina como da grossa, sem primeiro beijo e até sem beijo nenhum. Certo é que, quando se deixa chegar a marmelada a certo ponto, já não se pode voltar atrás. Mas há muitos pontos — todos eles doces — antes de lá chegar.
Chamar marmelada a este conjunto de prazeres tem a vantagem de agradar a ambos os sexos e a todas as sexualidades. Fala-se em marmelada — no meio de uma feira, por exemplo — e toda a gente sorri. Não se obtém o mesmo efeito com preliminares ou curtir.
É verdade que certos autores, ditos literalistas por levarem tudo à letra, associam a marmelada só às mamas, porquanto estas sejam conhecidas entre o povo bruto como marmelos. É redutor e machista limitar assim a marmelada, fazendo-a equivaler ao first base dos adolescentes americanos.
Lá está, outra vez, um desporto, o basebol. O que se passa com esta associação sistemática com o sexo? 
(...) De resto, como se explica a mania actual de dizer que tudo é better than sex? Seja chocolate, fazer surf ou um jogo de lençóis fofinhos. A ideia é: nada dá mais prazer do que o sexo, excepto este vinho tinto.
Alguma coisa hão-de estar a fazer mal — ou a não fazer — para andarem por aí a dizer, de tantas coisas, que são melhores do que sexo. Ou, por não terem tido esse prazer há muito tempo — ou ainda não terem tido —, esqueceram-se ou ainda não sabem.
Estas pessoas desgraçadas que “têm” sexo ou “fazem” sexo são as mesmas que usam a palavra “sexo” como se fosse sexy, em vez das palavras que Deus nos deu.
Passa-se o mesmo com os marmelos. Já tive muitos marmelos nas mãos e nunca vi um que se parecesse com a mama de uma mulher. Aliás, quanto melhores forem os marmelos, menos se parecem. Bons, bons são os quase em forma de pêra, nem muito pequenos nem muito grandes, mas rijos e pesadinhos, que se descascam com dificuldade mas com grande aproveitamento. (...)

É muito protestante esta maneira de pensar — e estraga a marmelada toda. É bom ter mapas, metas e objectivos — numa empresa. Mas não na cama. E muito menos no sofá ou na rua.
Confunde-se o prazer sexual com o desportivo e, como se isso não fosse suficientemente desmotivador, confunde-se tudo ainda mais um bocadinho com as boas práticas comerciais ou a mais recente moda de marketing.
É como a diferença entre a marmelada feita em casa e a industrial. A marmelada feita em casa sabe sempre melhor — e pode-se provar quente. A industrial também pode ser boa — é doce e dá energia e pode vir numa embalagem muito bonita — mas está sempre fria e acaba por sair mais cara.
Os homens cada vez confundem mais serem participantes e espectadores. Não é só no futebol, em que as únicas pessoas com juízo são as que são pagas para estar ali. É na inexplicável mania de ir a clubes de strippers e pagar só para ver, rodeado por outros homens. Onde está a marmelada se é proibido mexer? Na melhor marmelada é sempre preciso mexer.
Para a fina, usa-se a varinha mágica. Para a grossa, que leva mais tempo, usa-se o passe-vite."

Miguel Esteves Cardoso

Crónica completa aqui

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