quinta-feira, março 31, 2011

Norte - Nome de Portugal


"Primeiro, as verdades. O Norte é mais Português que Portugal. As minhotas são as raparigas mais bonitas do País. O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela. As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram.

Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas. Mais verdades. No Norte a comida é melhor. O vinho é melhor. O serviço é melhor. Os preços são mais baixos. Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia. Estas são as verdades do Norte de Portugal. Mas há uma verdade maior. É que só o Norte existe. O Sul não existe. As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, etc, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta. Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte. No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos.
Quem é que se identifica como sulista? No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.

Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país. Não haja enganos. Não falam do Norte para separá-lo de Portugal. Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal. Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal. Mas o Norte é onde Portugal começa. Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo. Deus nos livre, mas perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte. Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa. Mais ou menos peninsular, ou insular. É esta a verdade. Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte.

Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.

No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa. O Norte cheira a dinheiro e a alecrim. O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade. Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.

O Norte é feminino. O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.

As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos. Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito.

Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas. São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem.

As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte.
Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente. Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial. Só descomposturas, e mimos, e carinhos. O Norte é a nossa verdade. Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores.

Depois percebi. Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o "O Norte". Defendem o "Norte" em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo.

Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma terra maior, é comovente.
No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima.

Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita. O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os-Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.

O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm de dizer "Portugal" e "Portugueses". No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como "Norte". Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?"

Miguel Esteves Cardoso


Malta do Norte: façam o favor de mostrar o vosso orgulho!!!
E os do Sul com eu também se podem manifestar!!

Pedido de ajuda

Ora bem, como devem já ter visto a humilde dona deste estaminé é fã devota da escrita do Miguel Esteves Cardoso, tanto que andam para aqui diversas crónicas dele.
Mas esta pobre alma anda a dar em doida porque simplesmente não consegue encontrar nenhum livro dele nos meandros da Internet a não ser "O amor é fodido", que já se encontra comigo.
Então o que eu peço e pergunta é por ventura alguém sabe onde eu posso encontrar o raio dos livros ou mais textos dele, que não seja no citador?
O citador até ajuda....o problema é que são poucos os textos completos e muitas as citações...e para se encontrar o texto a que corresponde a citação???Outra dor de cabeça, ou uma missão impossível.


Assim, existe alguma alma caridosa que me queira ou consiga ajudar?
Eu não posso pagar, mas fico muito muito muito muito agradecida.....



CNE

Disse ontem o site da TSF:

"A Comissão Nacional de Eleições (CNE) vai fazer uma campanha informativa para que os eleitores verifiquem se a inscrição no recenseamento eleitoral está correcta.
A Comissão Nacional de Eleições vai lançar uma campanha «preventiva» para apelar aos eleitores para verificarem se a inscrição no recenseamento eleitoral está correcta, mas os 'spots' poderão acabar por só passar um dia na televisão.
A campanha, que João Almeida, membro da CNE, classifica como «preventiva» é constituída por dois 'spots' televisivos que mostram aos eleitores como podem verificar a sua inscrição no recenseamento eleitoral através da Internet ou por mensagem de telemóvel.
Contudo, visto que a marcação de eleições suspende a actualização do recenseamento e que, depois da fixação da data do acto eleitoral só em processos de reclamação é que será possível alterar as inscrições, a campanha poderá só passar nas televisões um dia.
«No dia em que sair um decreto a marcar uma eleição esta campanha deixa de fazer sentido», admitiu João Almeida, durante uma conferência de imprensa em que a campanha da CNE foi divulgada.
João Almeida recusou, contudo, a ideia de que não se trata de uma campanha útil."
Esta informação é de extrema importância. Só que o problema é a "validade" desta campanha. Acaba no dia em que o Presidente da República decretar a data das próximas eleições legislativas, ou seja esta espectacular campanha para se fazer a devida actualização dos números de eleitores acaba hoje ou amanhã.
E depois, o que se vai passar?????
Quando forem as Eleições Legislativas vai ser o regabofe autêntico....
E sim, esta é mais uma forma de se ver o quanto bem gasto é o nosso dinheiro.

quarta-feira, março 30, 2011

Hora do Vitinho (72)

No youtube está um comentário sobre este vídeo que diz o seguinte: "This song make me go to bed ... zZZ"


Conhecem o nosso país??

Sei que este post é gigante, mas não tinha fundamento separar os textos. Tenham paciência...


Se têm facebook, mais cedo ou mais tarde o primeiro texto irá provavelmente aparecer no ecrã do vosso computador.
Nicolau Santos, o Director Adjunto do expresso publicou na revista UP da TAP, um artigo em que nos lembra das coisas boas que o nosso país tem. 

"Eu conheço um país que em 30 anos passou de uma das piores taxas de mortalidade infantil (80 por mil) para a quarta mais baixa taxa a nível mundial (3 por mi.)
Que em oito anos construiu o segundo mais importante registo europeu de dadores de medula óssea, indispensável no combate às doenças leucémicas. Que é líder mundial no transplante de fígado e está em segundo lugar no transplante de rins.
Que é líder mundial na aplicação de implantes imediatos e próteses dentárias fixas para desdentados totais.

Eu conheço um país que tem uma empresa que desenvolveu um software para eliminação do papel enquanto suporte do registo clínico nos hospitais (Alert), outra que é uma das maiores empresas ibéricas na informatização de farmácias (Glint) e outra que inventou o primeiro antiepilético de raiz portuguesa (Bial).

Eu conheço um país que é líder mundial no sector da energia renovável e o quarto maior produtor de energia eólica do mundo, que também está a constuir o maior plano de barragens (dez) a nível europeu (EDP).

Eu conheço um país que inventou e desenvolveu o primeiro sistema mundial de pagamentos pré-pagos para telemóveis (PT), que é líder mundial em software de identificação (NDrive), que tem uma empresa que corrige e detecta as falhas do sistema informático da Nasa (Critical)e que tem a melhor incubadora de empresas do mundo (Instituto Pedro Nunes da Universidade de Coimbra)

Eu conheço um país que calça cem milhões de pessoas em todo o mundo e que produz o segundo calçado mais caro a nível planetário, logo a seguir ao italiano. E que fabrica lençóis inovadores, com diferentes odores e propriedades anti germes, onde dormem, por exemplo, 30 milhões de americanos.

Eu conheço um país que é o «state of art» nos moldes de plástico e líder mundial de tecnologia de transformadores de energia (Efacec) e que revolucionou o conceito do papel higiénico(Renova).

Eu conheço um país que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial e que desenvolveu um sistema inovador de pagar nas portagens das auto-estradas (Via Verde).

Eu conheço um país que revolucionou o sector da distribuição, que ganha prémios pela construção de centros comerciais noutros países (Sonae Sierra) e que lidera destacadíssimo o sector do «hard-discount» na Polónia (Jerónimo Martins).

Eu conheço um país que fabrica os fatos de banho que pulverizaram recordes nos Jogos Olímpicos de Pequim, que vestiu dez das selecções hípicas que estiveram nesses Jogos, que é o maior produtor mundial de caiaques para desporto, que tem uma das melhores seleções de futebol do mundo, o melhor treinador do planeta (José Mourinho) e um dos melhores jogadores (Cristiano Ronaldo).

Eu conheço um país que tem um Prémio Nobel da Literatura (José Saramago), uma das mais notáveis intérpretes de Mozart (Maria João Pires) e vários pintores e escultores reconhecidos internacionalmente (Paula Rego, Júlio Pomar, Maria Helena Vieira da Silva, João Cutileiro).

O leitor, possivelmente, não reconhece neste país aquele em que vive ou que se prepara para visitar. Este país é Portugal. Tem tudo o que está escrito acima, mais um sol maravilhoso, uma luz deslumbrante, praias fabulosas, ótima gastronomia. Bem-vindo a este país que não conhece: PORTUGAL."




Do mesmo autor apareceu-me este outro artigo do mesmo autor, datado de 2007 e publicado na revista "Exportar" 




“Eu conheço um país que tem uma das mais baixas taxas de mortalidade de recém-nascidos do mundo, melhor que a média da União Europeia.



Eu conheço um país onde tem sede uma empresa que é líder mundial de tecnologia de transformadores.



Mas onde outra é líder mundial na produção de feltros para chapéus. Eu conheço um país que tem uma empresa que inventa jogos para telemóveis e osvende para mais de meia centena de mercados.



E que tem também outra empresa que concebeu um sistema através do qual você pode escolher, pelo seu telemóvel, a sala de cinema onde quer ir, o filme que quer ver e a cadeira onde se quer sentar.






Eu conheço um país que inventou um sistema biométrico de pagamentos nas bombas de gasolina e uma bilha de gás muito leve que já ganhou vários prémios internacionais.



E que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial, onde se fazem operações que não é possível fazer na Alemanha, Inglaterra ou Estados Unidos. Que fez mesmo uma revolução no sistema financeiro e tem as melhores agências bancárias da Europa (três bancos nos cinco primeiros).








Eu conheço um país que está avançadíssimo na investigação da produção de energia através das ondas do mar. E que tem uma empresa que analisa o ADN de plantas e animais e envia os resultados para os clientes de toda a Europa por via informática. 





Eu conheço um país que tem um conjunto de empresas que desenvolveram sistemas de gestão inovadores de clientes e de stocks, dirigidos a pequenas e médias empresas.







Eu conheço um país que conta com várias empresas a trabalhar para a NASA ou para outros clientes internacionais com o mesmo grau de exigência. Ou que desenvolveu um sistema muito cómodo de passar nas portagens das auto-estradas. Ou que vai lançar um medicamento anti-epiléptico no mercado mundial. Ou que é líder mundial na produção de rolhas de cortiça. Ou que produz um vinho que “bateu” em duas provas vários dos melhores vinhos espanhóis.



E que conta já com um núcleo de várias empresas a trabalhar para a Agência Espacial Europeia. Ou que inventou e desenvolveu o melhor sistema mundial de pagamentos de cartões pré-pagos para telemóveis. E que está a construir ou já construiu um conjunto de projectos hoteleiros de excelente qualidade um pouco por todo o mundo.






O leitor, possivelmente, não reconhece neste País aquele em que vive – Portugal.



Mas é verdade. Tudo o que leu acima foi feito por empresas fundadas por portugueses, desenvolvidas por portugueses, dirigidas por portugueses, com sede em Portugal, que funcionam com técnicos e trabalhadores portugueses.




Chamam-se, por ordem, Efacec, Fepsa, Ydreams, Mobycomp, GALP, SIBS, BPI, BCP, Totta, BES, CGD, Stab Vida, Altitude Software, Primavera Software, Critical Software, Out Systems, WeDo, Brisa, Bial, Grupo Amorim, Quinta do Monte d’Oiro, Activespace Technologies, Deimos Engenharia, Lusospace, Skysoft, Space Services. E, obviamente, Portugal Telecom Inovação. Mas também dos grupos Pestana, Vila Galé, Porto Bay, BES Turismo e Amorim Turismo. 
E depois há ainda grandes empresas multinacionais instaladas no País, mas dirigidas por portugueses, trabalhando com técnicos portugueses, que há anos e anos obtêm grande sucesso junto das casas mãe, como a Siemens Portugal, Bosch, Vulcano, Alcatel, BP Portugal, McDonalds (que desenvolveu em Portugal um sistema em tempo real que permite saber quantas refeições e de que tipo são vendidas em cada estabelecimento da cadeia norte-americana).
É este o País em que também vivemos.



É este o País de sucesso que convive com o País estatisticamente sempre na cauda da Europa, sempre com péssimos índices na educação, e com problemas na saúde, no ambiente, etc.


Mas nós só falamos do País que está mal. Daquele que não acompanhou o progresso. Do que se atrasou em relação à média europeia.

Está na altura de olharmos para o que de muito bom temos feito. De nos orgulharmos disso. De mostrarmos ao mundo os nossos sucessos – e não invariavelmente o que não corre bem, acompanhado por uma fotografia de uma velhinha vestida de preto, puxando pela arreata um burro que, por sua vez, puxa uma carroça cheia de palha. E ao mostrarmos ao mundo os nossos sucessos, não só futebolísticos, colocamo-nos também na situação de levar muitos outros portugueses a tentarem replicar o que de bom se tem feito.

Porque, na verdade, se os maus exemplos são imitados, porque não hão-de os bons serem também seguidos?”


Eu conheço um país que ganhou ontem o chamado "Prémio Nobel da Arquitectura", pelo Arquitecto Souto Moura.
Conheço um país que na agricultura, na pesca e no turismo, fontes de riqueza que estão mal exploradas.
Conheço um país onde existem grandes mentes brilhantes, pessoas empreendedoras que têm muito valor.
Mas também conheço um país onde a riqueza está mal distribuida, onde as pessoas são quase sub-contratadas para terem um ordenado ao fim do mês.
Conheço também um país onde muitos se recusam a trabalhar, ou porque o ordenado é baixo, ou porque não apetece.
Eu conheço um país com uma segurança social que não funciona bem, que tira a quem precisa, que dá a quem não merece.
Eu conheço um país onde o golfe é tributado a 6%, vá-se lá saber porquê.
Eu conheço um país convivem como um só a riqueza e a pobreza.
Eu conheço um país que tem uma reserva de ouro imensa que dava para pagar o nosso défice.
Eu conheço um país que é reconhecido pelo mundo pela arte, pela música, pela culinária, pela cultura.

Eu conheço estes dois países, acredito que temos muito para dar. Mas tenho pena de conhecer um país que se encontra neste momento mal-tratado e mal estimado. Um país em que nem os governantes tratam condignamente as pessoas que eles representam.
Eu gostava de acreditar e de conhecer muito este país, mas não é fácil sair de casa e olhar para este país com bons exemplos, quando são os maus que predominam.

terça-feira, março 29, 2011

Hora do Vitinho (71)

Enviaram-me esta música por mail, e não resisti a pô-la aqui.
Agora vou descobrir mais umas coisas deles, porque este tipo de música faz-me bem.
É zen, relaxante, calminho, é bom para a hora do Vitinho.

De sãos e de loucos...

De sãos e de loucos todos nós temos um pouco. Essa é a grande verdade. Para os menos atentos, no lado direito deste estaminé encontra-se uma etiqueta chamada depressão e afins. Quero com isto dizer que não é a primeira vez que falo destes assuntos, e não será a última.
Ao ler os posts da Sofia e do Pedro confrontei-me como uma realidade que me aconteceu há alguns anos atrás: o aprender a lidar com alguém bipolar.
A minha mãe é bipolar provavelmente desde sempre, e "desenvolveu" o tipo mais chato da doença, aquele que nos dá muito que fazer. Ao grau da doença acrescenta-se um feitio do caraças que dificultou muita coisa. Provavelmente o feitio e a doença sempre foram um só, uma vez que actualmente a minha mãe encontra-se estável, apesar de ter os períodos de ansiedade e de depressão, mas nada é comparado ao que já vi e já passei.
Hoje a minha mãe admite a doença, mas nunca soube quando estava a entrar numa crise de mania, porque aos olhos deles uma crise destas é qualquer coisa de bom, deve dar-lhes uma adrenalina maravilhosa pela sensação de serem deuses, de serem donos do mundo.
Não é fácil ser-se bipolar, e não é fácil lidar-se com um bipolar como a minha mãe. Digo isto, porque conheço pessoas bipolares que fazem a vida delas de forma normal, tomam a medicação e vivem um dia de cada vez, e pensam se o dia de hoje não foi bom o de amanhã será melhor. Eu levei anos para que a minha mãe encarasse a coisa desta forma, e ainda luto muito para que ela tenha esta visão.
À bipolaridade acrescentou-se uma pré-demência, que provavelmente ajudou bastante a estabilizar a doença.
Mas antes de acontecer esta espécie de "estabilização" eu lidei com:
Episódios psicóticos.
Crises de mania que não lembram a ninguém.
Tentativas de suicídio (forjadas claro está).
Ameaças à minha integridade e à das pessoas que me rodeiam.
Telefonemas para a polícia
.........
Enfim....um autêntico festival.
Cheguei a ouvir coisas como:
"Vou-me matar, mas não sei quando."
"Eu mato-te, eu parto-te toda."
"Eu faço o que quero e não tenho que dar satisfações."
"Eu não vou tomar estes medicamentos."
"Eu não sou doente."
"Eu sou muito doente e não sei o que sou capaz de vos fazer."


A minha mãe teve um episódio psicótico que levou a que eu tivesse medo de dormir, porque tinha receio que ela me fizesse alguma coisa, isto porque a minha mãe nessa altura para além de andar com fervor católico exacerbado (o padre só ajudava à festa e dizia algo como "continue a rezar"), ela via luzinhas, santinhos e sim o diabo atrás de mim que dizia que eu era má, e por ai adiante.
Eu cheguei muitas vezes a vir de Tomar para casa em vésperas de exames porque a minha mãe estava em crise.
O que eu aprendi com isto? Aprendi a tratar de mim, mas também aprendi a lidar com um lado muito mau que os doentes mentais têm: o lado da chantagem emocional. Aprendi a não cair mais na história "do eu mato-me", e a dizer "então quando tomares os comprimidos avisa, para irmos ao hospital", ou a ameaçar verdadeiramente com avisos para a GNR e telefonemas para os bombeiros quando via que eu ou a minha avó e mesmo a minha mãe estávamos com a nossa integridade física ameaçada. E se fiz isso? Fiz, e farei novamente se for necessário.


O que eu quero dizer é que não é fácil para ninguém, mas infelizmente nenhum de nós consegue entrar na cabeça de um doente mental, seja ele bipolar, esquizofrénico, psicótico, múltiplas personalidades, distúrbios de personalidade, e todos os nomes lindos que para ai andam, e mostrar que a estabilização e o tratamento não são só efectuados pelo tratamento mas pela vontade que a pessoa tem. 


O primeiro passo para a estabilização de um doente mental, infelizmente não é nosso. Tem que ser dele. Tem que ser o doente a admitir que algo está mal "no convento", consciencializar-se disso, fazer a medicação e aprender ele mesmo a lidar com o problema. Família, amigos e terapias são importantes, mas de nada serve se a pessoa não tiver a real noção do que tem, e se não quiser tratar-se seja por medicação, seja por internamentos.
Muitos destes doentes gostam da adrenalina que estes problemas dão. Vivem a vida e os dias de uma forma demasiado "irreverente", fazem a máxima do viver cada dia como se fosse o último, magoam outras pessoas e principalmente magoam-se a eles mesmos, perdem a noção dos limites, quase que vivem numa realidade que não é mesma que a nossa. Querem este mundo e outro, a vida deles pode ser uma completa anarquia, tomam como deles o que é nosso.
Por vezes têm um ego e auto-estima demasiado elevados que ambicionam tudo e tudo fazem para serem o centro das atenções, para terem o mundo ao seu redor.


O que acontece é que muitos deles só tomam consciência do que se passa sendo já bastante tarde, tendo já batido no fundo do poço e não são capazes de sair de lá. Aí não há volta a dar, temos que esperar que ele admita o problema e que se quer tratar.
Quanto a nós, temos que ser compreensivos, mas também realistas.
Eu pessoalmente não faço a apologia do coitadinho que não joga com o baralho todo. Nada disso. É doente mental mas pode e deve viver em sociedade, pode e deve tratar-se e saber como lidar com a doença. Deve seguir uma medicação rigorosa e não misturá-la (eu chamo trocar cromos, era o que a minha mãe fazia).
Eu compreendo e respeito quem é doente mental, convivo com uma, e provavelmente trago o gene e quero muito que ele esteja aqui sossegado e a dormir, porque já é suficiente o meu Cipralex, e as consultas semestrais no psiquiatra.
 A diferença é que por ter tantos anos de "experiência" no assunto (vivo com a situação desde que me lembro de ser gente), não acredito em coitadinhos, não acredito em pessoas que usam a doença para terem benefícios, para serem uns coitados e fazerem de nós que fazemos de tudo para sermos sãos quase uns joguetes nas suas mãos.


Parece-vos um retrato demasiado duro este???
É a realidade de muitas pessoas, apesar de ser escondida. 
Infelizmente vivemos numa sociedade em que um doente mental ou é estigmatizado, ou dado como inapto para trabalhar, ou porque é moda ter-se uma depressão e estar de baixa médica por esses motivos, tal como é bom para muitos ter-se uma doença mental e usá-la para proveito próprio. 

Reflectir

"O que une uma mulher a um homem não passa por nada do que aparentemente vale. Passa por onde? Não, não: pode não ser por aí, embora seja fundamentalmente por aí. Porque mesmo aí outros poderiam cumprir melhor, com o acréscimo do resto. Há uma falha (uma falta) essencial na mulher que só um certo homem pode preencher. E não é necessariamente essa. O mais misterioso no domínio das relações é o que se situa nas relações amorosas. Ou seja no que há de mais íntimo, essencial, primeiro do ser humano. Um labregório qualquer, torto, bronco, cabeçudo, pode ser amado pela mulher mais divinal e inteligente e ilustrada e refinada de figura. Haverá, pois, para o homem dois mundos que não comunicam entre si e que se separam na porta do quarto. Poucos são os que a atravessam em glória — idos da rua ou para a rua."


Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

Eu fiquei tão baralhada com este texto, mas ao mesmo tempo gostei tanto do que li, que não resisti a postá-lo.
E fiquei com estas dúvidas:
Afinal de contas por onde passa a união de uma mulher e de um homem???
                 E que falha é que os homens nos podem colmatar???
                 Para o homem quais são os mundos que não comunicam??
                 O que será o "por aí", que o texto fala?


© Brainstorming
Maira Gall