Fugir....

quinta-feira, março 24, 2011

Enquanto andava a fazer a pesquisa para aqui, foi dar uma vista de olhos ao Jornal de Letras e deparei-me com um blog chamado Os três pastorinhos, e gostei bastante. Gostei o suficiente para retirar de lá este texto todo chamado Respiração boca a boca:

"Preliminarmente telegrafar-te-ei uma dúzia de rosas

Depois te levarei a comer um chop-suey
Se a tarde também for loura abriremos a capota
Teus cabelos ao vento marcarão oitenta milhas."
História Passional, Hollywood, Califórnia - Vinicius Moraes

Ou, como diria Mike Fingers, no amor somos todos ladrões
Vamos por essa estrada. Em fuga. Como num policial americano.
Vamos por essa estrada, feitos estrelas de um filme noir, acossados como Bonnie & Clyde
com as balas a zumbirem nos nossos ouvidos.
Vamos por essa estrada. Sem volta nem destino que não seja aquele que o volante desenha.
Vamos deitar fora os mapas, os desencontros programados, os planos cinzentos, as angústias azedas, como limões e os ciúmes parvos como os dias sem as tuas gargalhadas no meu retrovisor.
Vamos por essa estrada. Com os nossos cachecóis "on the road". Os cabelos ao vento marcando 80 milhas à hora, esvoaçando, livres e novos, até ganharem a brancura das neves da serra longínqua, com o passar do alcatrão dos dias que passamos juntos nessa .
Vamos por essa estrada fora. Foragidos. Protegidos pela sombra da serra que esconde os amantes e os ladrões. Vamos em fuga com os teus cabelos a 80 milhas à hora.
Fugir das sirenes
das urgências
dos GPS`s da vida
dos dias todos iguais
dos revólveres apontados ao coração
Vamos por essa estrada fora. Sem retorno. Sem sentido obrigatório, desenhando as curvas a 80 milhas no teu cabelo com a luz veloz do pincel de Vermeer.
Vamos por essa estrada, tagarelando o nosso silêncio de quadrilha fugitiva, mordendo os lábios ao som do piano que estende a sua cauda de lágrimas pelo vale das cerejeiras que choram pérolas vermelhas e doces...
Vamos fugir como ladrões de bancos felizes esperando que essa estrada nunca acabe.
Vamos de cabelos ao vento, olhos húmidos e palavras caladas na garganta
Vamos por essa estrada fora. Num tempo só nosso, de ladrões, amantes, mágicos, farsantes, vendedores ambulantes, domesticadores de tigres, com dedos de ourives.
Vamos por essa estrada. Com os cabelos em excesso de velocidade, ao som do piano que deixa a sua cauda perfumada como as cerejas que roubaremos nos pomares que se estendem nas bermas dessa estrada.
Apenas um momento, um marco geodésico do nosso longo caminho, que será para sempre,
a nossa estrada sem fim. A estrada por onde vamos de cabelos ao vento, livres. E, por fim respiramos juntos, boca a boca, num beijo etéreo, eterno, até ao último suspiro. O nosso. nós.eu.tu.


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