quinta-feira, março 31, 2011

Norte - Nome de Portugal


"Primeiro, as verdades. O Norte é mais Português que Portugal. As minhotas são as raparigas mais bonitas do País. O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela. As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram.

Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas. Mais verdades. No Norte a comida é melhor. O vinho é melhor. O serviço é melhor. Os preços são mais baixos. Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia. Estas são as verdades do Norte de Portugal. Mas há uma verdade maior. É que só o Norte existe. O Sul não existe. As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, etc, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta. Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte. No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos.
Quem é que se identifica como sulista? No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.

Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país. Não haja enganos. Não falam do Norte para separá-lo de Portugal. Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal. Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal. Mas o Norte é onde Portugal começa. Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo. Deus nos livre, mas perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte. Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa. Mais ou menos peninsular, ou insular. É esta a verdade. Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte.

Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.

No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa. O Norte cheira a dinheiro e a alecrim. O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade. Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.

O Norte é feminino. O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.

As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos. Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito.

Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas. São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem.

As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte.
Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente. Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial. Só descomposturas, e mimos, e carinhos. O Norte é a nossa verdade. Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores.

Depois percebi. Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o "O Norte". Defendem o "Norte" em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo.

Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma terra maior, é comovente.
No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima.

Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita. O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os-Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.

O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm de dizer "Portugal" e "Portugueses". No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como "Norte". Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?"

Miguel Esteves Cardoso


Malta do Norte: façam o favor de mostrar o vosso orgulho!!!
E os do Sul com eu também se podem manifestar!!

17 comentários

  1. Aiii o meu Porto que me corre no sangue...!
    Obrigada, Miguel, obrigada Inês!
    Bjs,
    Sofia

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  2. Já está feito o link, não fosse eu uma minhota de Viana do Castelo!

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  3. Nem a propósito...vou amanhã em retiro para norte, isolar-me e sossegar um pouco junto da natureza...tão bom... :)*

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  4. Nascida na cidade do Porto e criada no nordeste transmontano onde cresci e me fiz mulher...
    E modéstia a parte... mulher de fibra....
    Mulher sem medo.
    Biba o norte!
    A nossa comida, a nossa franqueza, a nossa beleza... não só das mulheres mas também das praias, dos lugares, das nossas cidades hospitaleiras.
    A nossa pronúncia....
    A forma fácil de socializar.

    As asneiradas!
    Mas Adoro o Alentejo.... Acho os alentejanos uns amores... e o Alentejo é algo de maravilhoso perfumado e doce.
    Quanto às ilhas.... vou conhecer primeiro e depois digo. beijo Inêsita

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  5. Eu sou do Norte, caralho...


    (queres orgulho maior?)

    Posso dizer palavrões aqui, não posso?

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  6. É complicado hoje saber de onde somos...nascemos num lugar, mudamos para o outro, estudamos noutro, trabalhamos noutro, vivemos noutro...se o BI conta.. sou de Bragança- freguesia da Sé- depressa me mudei para o Porto onde fiz por lá alguns anos escolares, depois estudei em Coimbra,Bragança, mudei-me para o Porto antes da faculdade, estudei em Évora, decidi voltar para Braga, acabado o curso fui para o Algarve, regressei ao interior transmontano, voltei para Bragança 6 /7 anos, vim instalar-me em Guimarães...e hoje ando repartida entre o Berço e onde o rapaz trabalha a 80kms! Afinal de onde sou? Tenho costela transmontana e costela minhota...lugares onde vivi foram tantos que nem sei onde sou! Não me identifico com minhotos...prefiro os transmontanos mais puros, directos mas não me sinto estranha entre minhotos...nunca vivi no mesmo local onde trabalhei...não me identifico com palavrões...não os acho genuínos se não de gente pobre de vocabulário porque há formas inteligentes e polidas de dizer o mesmo...
    Adoro Viana do Castelo no Verão, Gerês no Inverno, Bragança nos tempos de neve, Vila Real em Setembro e adorei viver em Évora... em suma tenho orgulho em ser portuguesa..apesar das vergonhas que o país vive actualmente!

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  7. Também gosto de mudar...seria incapaz de estar no mesmo lugar mais de 4/5 anos... já me arrependi de comprar casa em Guimarães...porque quero reformar-me e ir viver sossegada para onde não haja net, blogs...e só o rapaz me prende em Portugal... se não já tinha ido dar aulas ou para os Palop ou para um qualquer país da Europa onde todos os anos os Professores de Português estão sempre a serem requisitados!
    Sou selvagem...e errante suficiente para me manter no mesmo local...até o nome do blog mudo para não estagnar...

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  8. Sofia: quando fui ao Porto, fiquei fã.
    E quero ir mais para Norte.

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  9. Indetermindo: invejo-te!!! :)

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  10. Petra: :)
    A minha costela alentejana agradece mas a costela do Oeste está a torcer o nariz... :)

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  11. Marge: a isso chamo seres uma cidadã do mundo, mas o norte corre-te nas veias.
    Eu estudei com pessoas do norte, tenho familiares no norte, e as asneiras são algo que se apoderou deles, mas não considero os palavrões como algo genuíno, apesar de conhecer pessoas do Norte que não dizem asneiras.
    Os Nortenhos têm as asneiras, os Alentejanos o sotaque arrastado e palavras que só eles entendem.
    Somos todos diferentes e todos iguais, e é esta heterogeneidade que torna este país em algo de tão especial.

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  12. Inêsita.... conheço mal o oeste... logo não posso falar muito dele.
    Mas acredita que conhecer melhor as caldas e visitar a Óbidos é um desejo antigo.
    Esqueci-me também de dizer em cima que adoro o minho e o algarve...
    No minho passo muito tempo pois tenho lá uma irmã e visito-a com frequência e o Algarve, bem... bons momentos hehehhe. bjo

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  13. Estavas a referir-te a Óbidos? Simplesmente único...Só nunca fui ao festival (acho) do Chocolate porque não gosto de chocolate! Mas de Nisa lembro-me que quando lá vou ou passo não resisto a trazer queijo...Ah! Belmonte outro lugar mágico onde na Pousada parece que recuas no tempo mas com o conforto do século XXII...Piódão, Avô são aldeias que fascinam só de ver... as casas são dignas de uma reforma em plenitude! Portugal tem lugares fabulosos!

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  14. Petra: visita Óbidos. Vale a pena, é uma vila lindíssima.

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  15. Marge: respira-se história dentro das muralhas de Óbidos, e a Câmara Municipal tem feito um trabalho notável ao nível turístico.
    Nunca fui aos sítios que disseste, mas de facto temos um país maravilhoso.
    As pessoas deviam fazer mais a apologia do "vá para fora cá dentro".

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  16. "Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal. Mas o Norte é onde Portugal começa. Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo. Deus nos livre, mas perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte. Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa."

    Isto é o Miguel Esteves Cardoso a inventar...

    Está a falar de um país que nunca existiu a não ser muito recentemente. A ideia de nortenho, que eu creio que se refira à região ao Norte do Douro, é uma criação moderna, quase contemporânea, em princípio resultado da Região Demarcada do Douro.

    Antes do século XVIII nem pensar nisso. E Portugal começou no norte mas apenas no Litoral, sendo certo haver uma clara divisão com o norte interior. Aliás, Portugal incorporou mais cedo os territórios litorais até Coimbra do que Trás-os-Montes e Bragança.

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