Gula

segunda-feira, abril 25, 2011

"A maioria das freiras não ia para os conventos por escolha espiritual. Como diz Alfredo Saramago: "As segundas filhas ricas, algumas herdeiras solteiras, viúvas, adolescentes órfãs mas com fortunas constituíam a população feminina dos conventos. Gente habituada a uma vida rica com os hábitos e costumes de uma classe privilegiada." 
Seja: eram meninas queques e tias. Sujeitavam-se, com maior ou menor resignação ou vontade, a vestirem-se e a portarem-se todas da mesma casta maneira. Tirando-lhes a liberdade, o ócio, os namoros, a roupa, os sapatos e os penteados e enchendo-lhes a vida de missas e obrigações, que podiam elas fazer?
Explodir na cozinha. É o único sítio onde podem exprimir-se; onde podem inventar; onde podem deliciar-se. Nem pensar em fazer sopas ou assados. Tinham empregadas para lhes fazerem as refeições. De resto, os salgados eram coisa de frades barrigudos. Não, as freiras portuguesas só podiam interessar-se pelo que é supérfluo, complexo e descaradamente sensual: os doces. Foi tal a concentração de inteligências, sexualidades, imaginações e perícias destas nossas irmãs nos doces que inventaram que se tornou uma banalidade dizer que a doçaria conventual portuguesa é a melhor do mundo.
(...) É nos nomes destes doces que as freiras, por assim dizer, levantam um bocado o véu. As receitas podem ser impenetráveis, mas os nomes puxam e chamam por nós.
As frustrações das mulheres que foram para freiras à força - e não há força como a ordem social - foram grandes geradoras de raivas de todas as espécies. Desde as raivas violentas às raivinhas. A relação entre as frustrações e o açúcar é tão estreita como o maior amor. O lugar-comum da mulher que trata um desgosto de amor com chocolate, bolos ou (nos filmes americanos) gelado, é o mais comum e verdadeiro de todos os lugares.
(...)
Imagine-se agora com uma mulher enclausurada. Para sempre. Tem fartura de açúcar, ovos e amêndoas. O que é que faz? Doces. Doces que levam muito tempo a fazer. Doces que pode comer. Doces que pode oferecer ou vender. Doces que dão prazer, que trazem elogios e são trocados por outros doces. Doces que se podem comer à mesa, numa atmosfera católica e portuguesa onde a gula gastronómica é mais uma prova de humanidade do que um pecado mortal. Que é, no máximo, uma marotice.
Os nomes da doçaria conventual são espantosos não porque evocam o amor, o namoro, o corpo e o sexo, mas porque, fazendo-o claramente, foram permitidos e adoptados por quem mandava nos conventos.
Há os sonhos, os suspiros e os ais. Há os beijos-de-freira. Há os namorados. Há as barrigas-de-freira, as barriguinhas-de-freira e os pescoços-de-freira. Há as ternuras, os mimos-do-confessor, as sestas. Há os papos-de-anjo e os toucinhos-do-céu. Há as raivas, os melindres e os mexericos-de-freiras.
Estes nomes são os que passaram. Imaginem-se agora os que não foram autorizados.
Se nos esquecermos, por um momento, que somos portugueses, as palavras "doçaria conventual" não nos deveriam excitar. Imagine-se "doçaria franciscana" ou "pastelaria carmelita". 
(...)
São descarados luxos. Não é só nos ingredientes (dúzias de ovos, quilos de amêndoas e de açúcar) mas no trabalho que dão, na perfeição técnica de que precisam e, sim, na astronómica concentração calórica que alcançam por centímetro cúbico, isto em doces tão irrecusavelmente deliciosos que é impossível não comer de mais.
Dir-se-ia que são o contrário da simplicidade e do sacrifício das freiras. Mas não são: são o resultado. Os doces conventuais são onde se soltam e concentram todos os desejos de liberdade e de prazer - toda a criatividade e toda a revolta - que não podem ser exprimidos e satisfeitos separadamente, de maneiras mais directas e mais fáceis.
Voltando aos nomes, em vez de tentar ver o que querem ou possam querer dizer, por que é que não nos ficamos por eles? Comparem-se os nomes da doçaria conventual portuguesa com os da doçaria secular. São, de longe, mais brincalhões, mais imaginativos e mais malandros. Os nomes em si dão prazer. Piscam-nos o olho. Sorrimos quando falamos em barriguinhas-de-freira e papos-de-anjo. Imaginamos freiras gulosas mas endiabradas, querendo tentar-nos com as suas guloseimas, fazendo-nos ceder, obrigando-nos a pecar gulosamente, deixando-nos a consciência pesada de culpas calóricas. Como é que 100 gramas de toucinho-do-céu conseguem transformar-se em mais um quilo de nós?(...)"
Miguel Esteves Cardoso in Público



Eu sou gulosa. Sou mesmo gulosa, sofro da síndrome do pecado da gula e sou capaz de enfardar doces até não poder mais. Ponham-me doces à frente que eu sou uma gaja muito feliz.
 
Basicamente,se as freiras não tinham os "doces carnais", inventaram os doces conventuais. Abençoado seja o celibato e a castidade, porque verdade seja dita ganhámos todos com isso. Doces bons, maravilhosos, calóricos, o pecado da gula elevado ao seu nível mais elevado.
Abençoadas sejam as freiras que me permitem pecar sem sentir remorsos...
Ainda bem que elas souberam ocupar os tempos mortos, porque fazem as pessoas muito mais felizes.

Mas entre estes nomes de doces fantásticos, maravilhosos, gulosos e pecaminosos, falta um muito importante...o beija-me depressa que são os docinhos pequeninos e maravilhosos que se encontram na belissíma e fantástica cidade de Templária.
E pegando no mote dos nomes dos doces e dos eventuais pecados, o nome beija-me depressa só me lembra para o pecado e a luxúria entre frades e freiras.
Encontravam-se os dois junto à Ponte Velha e diziam um ao outro algo como:
"Anda cá rápido!!"
"Para quê????"
"Oh pá!!!Beija-me depressa antes que aquela freira cusca que anda de olho em ti nos apanhe e nos denuncie!!!"

As freiras do Convento de Santa Iria deviam ser tramadas...E os Cavaleiros Templários não lhes deviam ficar atrás....malandros!!!! 

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