Mimos

quinta-feira, abril 14, 2011

"Metade dos problemas nacionais deve-se não à falta de meios, não à falta de talentos, não à falta de vontades, mas a uma outra falta mais grave: à falta de Mimo.
O Mimo é aquela coisa pequenina - ou não se diz que "miminho" vem de "minimu"?- que nos faz sentir suficientemente grandes para enfrentar as mesquinhas mediocridades do dia-a-dia. O Mimo é o Carinho inocente, destituído de conotações sexuais, livre de complicações e pronto a servir a quem precisa.(...) O Mimo, ao contrário do Carinho ou da Ternura, nada resolve. Mas relativiza todos os problemas que precisam - ou deixam de precisar - de uma solução. É a doçura fingida com que se finge e e consegue consolar as agruras mais agrestes deste mundo.(...) Só uma pessoa feliz é capaz de dar e receber Mimo em grandes quantidades.(...) As pessoas desiludidas não querem o Mimo para nada - querem é melhorias, precisam de obras e aguardam ansiosamente uma milagrosa ressuscitação.(...) O Mimo é o repouso da guerreira ou o do guerreiro, desfazendo-se em desvelos entre duas boas batalhas.(...) O Mimo é um câmbio de extremos e de branduras entre dois actores que se sentem tão seguros com os seus papéis que os podem trocar sem fazer confusões. A teatralidade do Mimo é uma consciência deliciosa. (...)"
Miguel Esteves Cardoso - A causa das coisas

Eu não concordo que só as pessoas felizes possam dar e receber mimos em doses industriais.
Acho sim, que existem pessoas que são demasiado infelizes ou tristes, e que por isso não querem dar nem receber mimo. As pessoas muito felizes, essas, por vezes podem estar demasiado ocupadas com a sua felicidade aparentemente eterna para acima de tudo darem mimo. Uma pessoa demasiado triste poderá estar demasiado ocupada com a tristeza e não conseguir olhar para a pessoa mais feliz ou menos triste que lhe quer dar mimo.
É normal dar mimo, é normal receber mimo.
O mimo deve dar-se sem se querer nada em troca. Um pouco como o sorriso, dá-se mas não se fica à espera de se receber em troca, nem é de pressupor isso. Quem espera dar e receber a sua dose em troca, nem é verdadeiro no mimo que dá.
Para mim existem várias maneiras de dar mimo: dou mimo através de um abraço, de um aconchego, de um sorriso, de beijos repenicados na bochecha. E dou apenas, não fico à espera de ser eu dia a mimada, a receber a minha moeda de troca. Nunca esperei por isso, sempre recebi mimo de forma esporádica sem estar à espera, sem querer que me o dessem.
Para dar mimo, não é necessário que haja amor, mas é necessária amizade. Amizade é bonita, fica bem e tem toda a lógica com o mimo. Amizade e mimo estão ligados.
O mimo de facto pode não resolver nada, mas ajuda-nos a ficar melhor, a sentirmo-nos melhor, mais aconchegados. Pode não nos pôr felizes, mas ajuda um pouco, e faz-nos pensar que as coisas podem e vão correr melhor.

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