Os ombros suportam o mundo

sábado, abril 30, 2011

"Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança. 
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espectáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação."


Carlos Drummond de Andrade - Os Ombros Suportam o Mundo 


Existe a fase em que me sinto eléctrica e não gosto de me sentir eléctrica e de sentir a cabeça a matraquear ideias, a querer ocupá-la para fazer apenas uma coisa de cada vez,e não pensar em 1001 coisas.
A fase em que noto que o meu tom de voz de está mais acelerado e elevado e eu não quero sentir a minha voz assim.
A fase em que sinto o meu corpo e a minha mente com tanta adrenalina, que não me faz bem e ela tem que sair e eu tenho que explodir de alguma forma para a expulsar, porque esta adrenalina desgasta, não é uma adrenalina boa.
A fase em que eu peço a toda a gente que me chame a atenção para a electricidade e o estado ansioso, caso eu  não me consiga aperceber.
A fase em que tudo isto se mistura com a sacana da TPM que me faz andar ainda mais acelerada.


Depois,olha-se para a receita do médico e começa-se a tomar o Unilan conforme está indicado para esta fase. Quando começa a ir ao lugar como agora,surge a vontade imensa de deixar de conseguir fingir que estou a sorrir a toda a hora, em que arranjo sempre espaço para os outros em detrimento do meu.
É a fase em que só me apetece em mandar tudo ao ar e desaparecer por uns tempos, em escapar-me.
É a fase em que sei que quero concentrar-me em mim mesma, mas ao mesmo tempo em que sei que tenho que pensar em mim, tenho que levar à mesma comigo o peso do mundo.
É a fase em que sinto que não consigo aguentar, mas que sem saber como tenho que ir buscar força ao mais íntimo de mim para continuar por mim e pelos outros. Continuar por todos, continuar por mim e pelos outros.
Mas é mais uma fase que vai passar e eu vou continuar.
Ás vezes não sei se tenho uma fragilidade estranha, se tenho uma força bruta. Só sei que seja lá o que for que continue por cá porque eu preciso delas para me manter por aqui firme e hirta. Mas às vezes cansa tanto...

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