sexta-feira, abril 15, 2011

Precisa-se de matéria-prima para construir um país

"A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve.E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada.

Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.
O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria prima de um país. Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.
Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.

Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.

Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escolados filhos ....e para eles mesmos.

Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.

Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito;
- Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.
- Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos.
- Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
- Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é "muitochato ter que ler") e não há consciência nem memória política, histórica nem económica.
- Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar alguns.



Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser "compradas", sem se fazer qualquer exame.
- Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.
- Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.
- Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.

Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado.
Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.

Não. Não. Não. Já basta.
Como "matéria prima" de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
Esses defeitos, essa "CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA" congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essafalta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte...

Fico triste.
Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos.

E não poderá fazer nada...
Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.

Qual é a alternativa?
Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror?

Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa "outra coisa" não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados... igualmente abusados!

É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda...
Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.
Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer.
Está muito claro... Somos nós que temos que mudar.

Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:


Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e, francamente, tolerantes com o fracasso.
É a indústria da desculpa e da estupidez.

Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido.

Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO.

E você, o que pensa?.... MEDITE!"

EDUARDO PRADO COELHO In Público

7 comentários

  1. Ora aí está.... tem de haver uma mudança colectiva, não basta mudar quem está no poleiro.

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  2. Oh, dá pano para mangas, bolas!...

    Kiss

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  3. Agora que o país está o nível do lixo, humilhado e desprezado.. por toda a Europa, descredibilizado.. só surge a culpa atribuída aos governantes...o que não me parece mal.. sim, fomos mal governados durante três décadas.. mas alguém tinha pensado que nos áureos tempos em que o dinheiro vinha a jorro da Europa.. vinha de borla? Que um dia não iríamos pagar a factura? Agora é fácil criticar e apontar o dedo quando toda a gente sabe que quem governa trata apenas dos seus interesses e dos amigos...e a política é mero trampolim para seguir para as grandes empresas? só descobriram agora?
    E culpar o povo... sim o povo.. que acreditou até ao fim ( e ainda grande percentagem acredita9 no país das maravilhas... será que esse mesmo povo pensou em gerir o dinheiro que tinha? Ganhavam mil euros gastavam 2 mil... até torradeiras compraram a crédito.. hoje estão entalados por todos os lados.. falei nisso no meu blog.. gente que tem dinheiro para um Fiat Punto... prefere um crédito para um BMW.. gente que não pode gastar faz créditos acreditando que os vbancos são bonzinhos.. mas à terceira vez que a prestação não é paga .. têm ordem de despejo.. é ver os jornais... com os carros acontece o mesmo. E depois sou criticada por ter os carros que tenho pois.. mas era o dinheiro que tinha sem ter de recorrer ao crédito.. o mesmo aconteceu com a casa.. Como tal esses problemas não os vou ter...porque felizmente o que tenho bom ou mau, ruim ou bom está pago! A culpa é dos bancos e dos Governates , mas é também da mentalidade portuguesa que quis sempre viver acima das suas possibilidades...Como digo no meu blog:
    " As medidas de austeridade vão cair-nos em cima com uma dureza da qual ainda não tomámos bem consciência. Mas, talvez tenham algum efeito benéfico.
    Talvez estas gerações que vão ser afetadas pela “tempestade” e depois da “grande bonança”, percebam finalmente que o dinheiro não vem do multibanco; que as férias não poderão ser sempre no Brasil ou nas Caraíbas; que «ir à neve» não poderá ser uma obrigação; que neste Mundo não poderá ser tudo “descartável” (o telemóvel avaria se, compra se outro mas de última geração; a PS2 deita se fora porque os novos jogos são para a PS3); que vestir roupas «de marca» não é fundamental para a afirmação da nossa imagem; que os livros e os MP3 não poderão fazer parte do pacote “cama, mesa e roupa lavada”; que ter a carta de condução e um carro, aos 18 anos, não é uma obrigação parental… coisas de gente imprudente! Que o diga o JEL...um verdadeiro artista de circo que mostra bem a mentalidade desta gente.." Assim não vamos lá . é esta é a terceira visita que o FMI faz a Portugal.. e nem assim se aprendeu a mudar mentalidades!

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  4. olá :)
    convido-a a visitar o meu blog de bijuteria/artesanato:

    www.atelierizzy.blogspot.com
    obrigada

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  5. Petra: hoje estava a falar mais ou menos disso com o meu pai.Mais que a mudança é preciso que os bons exemplos comecem a vir de cima, de quem manda. De maus exemplos já estamos nós fartos.

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  6. Marge: estamos num país em que muitos de nós viveram acima das possibilidades, e a entrada do euro veio acabar aos poucos com o pouco que havia. Casos como o teu, em que conseguiste pagar tudo sem recorrer ao crédito, infelizmente são raros.
    Mas tão culpado é o povo que se endividou, como a banca que facilitou créditos atrás de créditos, como os governos que nunca deram bons exemplos, apenas maus exemplos. Agora descobrimos que temos umas contas publicas que estão mais que esburacadas. Concordo que temos que pagar e contribuir todos,mas exigem-se grandes mudanças que devem vir do topo e novas medidas. Mas isso deixo para outro post.e

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