Gaga

sexta-feira, dezembro 16, 2011



Ao ler o post da Hysteria* resolvi debruçar-me sobre o assunto.
Eu sou gaga. Naturalmente gaga.Sou uma gaga genética, não apanhei nenhum susto que me deixasse gaga. Não gaguejo quando canto, mas também não acho que cante bem, ou que saiba cantar.
Não sou uma gaga muito gaga ou muito engasgada (como eu gosto de dizer), mas sou o suficiente para poder dedicar um post à gaguez.Não digo os R's quando estão no meio de uma palavra, e o L's também não.Comigo são um bocado atravancados.
Quando estou nervosa é um festa, porque língua e cérebro não estão sincronizados devidamente e há sempre um que quer acelerar mais que o outro.
Os gagos são discriminados na sociedade.É uma discriminação "mais leve", do que as habituais, porque enquanto não abrimos a boca está tudo bem, o problema está quando começamos a falar. Não sentimos o olhar de desprezo ou de ansiedade nos primeiros segundos de contacto visual, mas sentimo-lo nos primeiros minutos, quando sentimos a ansiedade e o embraço do outro lado, da pessoa que não é gaga e não sabe como reagir perante um gago.
Nota-se um olhar de "mauuuuu,é gaga", ouve-se "você é um bocadito gaga não é?" "sabe que a função exige contacto com o público, fluência na comunicação.
E isto custa e dói, saber-se que somos discriminados não em função de raça ou de corpo mas em função do que somos como pessoa. Nós gagos sofremos e percebemos bem o que é ser discriminado num meio social.

O site da Associação Portuguesa de Gagos, tem disponível um artigo chamado Terapia da gaguez publicado no boletim do Hospital Pulido Valente, que exemplifica bem o que se passa com os gagos.

(...)Raramente dizem que gaguejam. Têm um problema de fala. Raramente falam sobre o assunto e tentam aparentar, muitas vezes, uma certa tranquilidade em relação ao problema. (...)
 Em entrevistas de emprego na maioria das vezes esperei sempre que o assunto fosse abordado. Só o abordei por iniciativa própria quando via que a pessoa estava com receio de o fazer.
(...) Fazem tudo para que não se veja e para que não aconteça. Tudo, pode significar não falar, mudar de passeio para não saudar um vizinho. O gago arrisca-se muitas vezes a ser considerado mal educado ou tonto.   
É verdade verdadinha.Se me sinto nervosa, logo sei que estou mais gaga, se estou mais gaga provavelmente vou engasgar-me a dizer bom dia.
 (...)Têm sempre esperança que dessa vez não vão gaguejar. Por vezes não gaguejam. (...) Fogem às palavras e letras em que gaguejam mais. Esta atitude muitas vezes leva a que o sentido do discurso não corresponda  exactamente ao que tencionavam dizer. Nesta situação o gago fica com a frustração de não ter dito o que queria ou obriga-se a reformular passando novamente pelo suplício de falar. (...)
São muitas as vezes que digo mentalmente "weeeeee correu bem". Outras tantas em vez de dizer A + B + C, opto por dizer C + B + A
(...)  Pedir uma cerveja quando se pretende um café ou comprar um bilhete de comboio para uma estação diferente daquele a que se pretende chegar podem ser situações comuns no dia-a-dia de um gago.(...) Nestas situações o gago diz aquilo que for preciso para não gaguejar.(...)
Se sentir que vou gaguejar ao dizer a palavra café, opto por dizer bica e nunca o peço directamente ("é um café".) Digo "pode tirar-me por favor um café/uma bica?
(...)O gago perde muitas coisas na vida. Desiste de frequentar cursos por ser gago e vê-se impossibilitado de obter determinados empregos.Muitos gagos, pura e simplesmente, não falam ou falam muito menos do que se poderia imaginar (...)
E quando já se é tímido, como é o meu caso, ainda se perde mais.
(...)Um jovem que nos consultou referiu que um dos problemas graves com que se defrontava dizia respeito à impossibilidade de responder durante as aulas a qualquer pergunta feita para toda a turma. Sempre que queria responder pensava que iria gaguejar e enquanto hesitava outro colega adiantava-se e respondia. É evidente que seria inútil tentar convencer o professor, depois da resposta dada, que sabia responder e só não o tinha feito por ser gago.(...)
Aconteceu-me diversas vezes quando estava a estudar. Os professores diziam-me muitas vezes que não podia ter nota tal, porque não falava nas aulas. Sempre tive vontade de responder "Eu quero falar e sei as respostas.Mas como sou gaga e quero apresentar uma sequência lógica de palavras que me permita responder sem me engasgar muito, perco tempo e alguém se chega à frente.E não posso dizer algo como espere aí, deixe-me fazer o raciocínio".
(...)O gago malabarista Temos que reconhecer aos gagos uma grande habilidade para falar. O gago reconhece que existem palavras ou letras em que gagueja mais tenta evitar as palavras usando sinónimos e introduz fonemas parasitas para facilitar a produção do discurso.Se nem sempre é fácil exprimirmos com exactidão aquilo que desejamos, podemos imaginar a “ginástica” que o gago faz para dizer aquilo que quer. Ora, dadas estas circunstâncias o gago apercebe-se perfeitamente do resultado desastroso deste género de tentativas para controlar a gaguez.Consciente da pouca eficácia da solução encontrada persiste na sua aplicação, apenas por não encontrar outra melhor.(...)
Nem mais nem menos. Por vezes eu executo grandes  malabarismos. Para quê?? Para nada.
(...)Os gagos detectam nos seus interlocutores várias respostas à sua gaguez, mas as que referem como mais perturbantes, são a pena, o gozo, a ansiedade e o desprezo.(...)
 Irrita-me solenemente que acabem uma palavra ou uma frase por mim. Que digam "ela é um bocadinho gaga", que digam "fala com calma para gaguejares menos".
(...)Num grupo de conversa o gago está normalmente impedido de participar quer por limitação própria quer porque, tratando-se de uma conversa animada é difícil tomar a palavra para qualquer elemento do grupo. São situações em que frequentemente alguém diz com insistência “posso falar?” ou “agora falo eu!”. Estes pedidos de lugar na comunicação quase nunca são atendidos. É preciso impor a fala. Se o gago perguntar “posso gaguejar?” verificamos que esta inocente pergunta tem o dom de calar, literalmente, os outros elementos do grupo.(...)
Por norma quando quero falar e não me deixam, digo sempre "posso falar??" ou " eu sei que sou gaga, mas importam-se que eu fale?" e ainda "eu sei que estou nervosa, portanto isto não vai sair à primeira."
Mas vou ponderar seriamente no "posso gaguejar?"

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