terça-feira, fevereiro 21, 2012

Hora do Vitinho (114)

À parte de ser a enésima pessoa a fazer um enésimo post com o Pablo Alborán e  a Carminho, tenho a dizer que tudo isto é lindo, fantástico e maravilhoso: a guitarra, as vozes, tudo, tudo, tudo. Uma junção linda, fantástica e maravilhosa.




E para mim, com uma música destas, nada melhor do que juntar este maravilhoso texto:




Não há amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, há o equivalente adulto ao primeiro amor — é o primeiro casamento; mas não é igual. O primeiro amor é uma chapada, um sacudir das raízes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e não nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensável calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde saltámos. Saltamos e caímos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer três ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na água ou no chão, como patos disparados de um obus, com penas a esvoaçar por toda a parte.

Há amores melhores, mas são amores cansados, amores que já levaram na cabeça, amores que sabem dizer “Alto-e-pára-o-baile”, amores que já dão o desconto, amores que já têm medo de se magoarem, amores democráticos, que se discutem e debatem. E todos os amores dão maior prazer que o primeiro. O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. Pertence a um mundo que só tem duas cores — o preto-preto feito de todos os tons pretos do planeta e o branco-branco feito de todas as cores do arco-íris, todas a correr umas para as outras.

Podem ficar com a ternura dos 40 e com a loucura dos 30 e com a frescura dos 20 — não há outro amor como o amor doentio, fechado-no-quarto, o amor do armário, com uma nesga de porta que dá para o Paraíso, o amor delirante de ter sempre a boca cheia de coração e não conseguir dizer coisa com coisa, nem falar, nem pedir para sair, nem sequer confessar: “Adeus Mariana — desta vez é que me vou mesmo suicidar.” Podem ficar (e que remédio têm) com o «savoir-faire» e os «fait-divers» e o “quero com vista pró mar se ainda houver”. Não há paz de alma, nem soalheira pachorra de cafunés com champagne, que valha a guerra do primeiro amor, a única em que toda a gente perde e toda a gente morre e ninguém fica para contar como foi.

Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: «Não pensar, não resistir, não duvidar». Como acontece em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar. Anos mais tarde, ainda se sonha retomá-lo, reconquistá-lo, acrescentar um último capítulo mais feliz ou mais arrumado. Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre da nossa vida — «e não há milagres em segunda mão». É tão separado do resto como se fosse uma primeira vida. Depois do primeiro amor, morre-se. Quando se renasce há uma ressaca.

Miguel Esteves Cardoso - Os Meus Problemas

6 comentários

  1. Esta música m'encanta!! :)
    Foi curiosa a primeira vez que a ouvi... é que fiquei apaixonada por ela... pela vozes... pela magia que dela emana. Ouvi-a só um bocadinho durante um "zapping" na televisão... decorei algumas palavras da letra... e fui googlar para saber que música era para a poder ouvir de novo. Nesse dia e nos seguintes perdi a conta ao nº de vezes que a ouvi...

    Agora vou ler com calma este texto do "teu" MEC.

    Beijinhos :)

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  2. Tens de ouvir o cd e o dvd dele Inês, é muito bom mesmo.
    Beijinho ,o)

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  3. Postei no Domingo que passou, a música. O texto, enfim, uma junção perfeita. ;)

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  4. Orquídea: a música teve em mim o efeito "primeiro estranha-se depois entranha-se". E o MEC é o MEC....

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  5. Mary: no inicio confesso que não liguei muito à musica, mas depois ouvi-a porque andava no facebook de toda a gente, e depois....gostei muito muito.

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