Hora do Vitinho (129)

sábado, junho 30, 2012

"Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria que ainda estivesses viva. Só dois ou três minutos: o suficiente para te matar.


Merecias uma morte mais violenta. Se eu soubesse, não te tinha deixado suicidar com aquelas mariquices todas. Aposto que não sentiste quase nada. Não está certo. Eu não morri e sofri mais do que tu. Devias ter sofrido. Porque eras má. 


Eu pensava que não.

Enganaste-me. Alguma vez pensaste no que isso representou naminha vida miserável? Agora apetece-me assassinar-te de verdade.


É indecente que já estejas morta.
Quando tomaste os comprimidos sabias que estavas a safar-te.De boa. Confessa. Foi um bom negócio. As pessoas que levaram uma vida como a tua costumam morrer em circunstâncias que deixam muito a desejar. Afogadas em aquários. Estendidas de pernas abertas numa paragem de autocarro, esfaqueadas, sem cerimónias, e estranguladas por uma histérica numa casa de banho.


Eu tinha-te dado um tiro. Um tiro limpo nessa cabecinha — o suficiente para te assustar, mas rápido. A doer um bocadinho.

(...)


Nunca houve nada como o amor para nos ajudar a ver o mal. O amor é o antídoto da cenoura. Eu sempre te vi como uma rapariga encantadora. Tudo o que fazias tinha de ser forçosamente encantador. Por muito bruta que fosses, parecia-me sempre uma forma radical de encanto. Mesmo quando teimavas numa manifesta estupidez, eu cansava a cabeça até arranjar maneira de te dar razão. 


Achava que toda a gente te atacava injustamente. Parecia-me incompatível com a injustiça.Gozavam comigo, mas eu gostava de ser assim. Tinha a mania da lealdade. A bem ver, depois de tudo o que descobri a teu respeito desde que morreste, era apenas mais uma maneira de tentar agradar-te. Que tu detestavas. «Não preciso que me defendam!», gritavas sempre, como se eu te defendesse só por tu precisares. 


Como eras má. Má. Ingrata, caprichosa, cruel e má.
Trataste-me como não se trata — pode dizer-se — um cão. Contigo a comparação ganha nova força."


Miguel Esteves Cardoso - O amor é fodido


Um Vitinho a um sábado à noite é um contra senso....mas...
Os contra sensos às vezes acontecem.





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