Suposta linha de pensamento

terça-feira, julho 31, 2012

A minha mãe acomodou-se à  doença bipolar. Não aprendeu a viver com ela, a controlá-la, tratá-la. Acomodou-se, não tratou da doença como devia e esta foi tomando a pose da minha mãe, tal como o diabo toma conta de nós. E a minha mãe ajudou a essa acomodação. Deu casa, comida e roupa lavada à doença bipolar e esta instalou-se. Não a colocou no devido lugar, a doença fez da minha mãe a sua casa, e passou a coabitar com um feitio tramado.
Ao invés de expulsar, a minha permitiu que a doença habitasse com ela, e a doença ficou por cá, ora com umas manifestações paranóicas ora com períodos depressivos, (com tudo a que as crises bipolares têm direito). E uma doença mental com um feitio que não é dos melhores que existem não é coisa bonita de se ver.
Não tenho e nunca terei dúvidas de que a minha mãe tem crises, crises fortes. Mas por vezes assola-me a dúvida e questiono o porquê de ela ter permitido que a doença habitasse nela, da forma como habita. Questiono o porquê da falta de luta, de revolta e vontade não de sobreviver, mas de viver com a doença e de não permitir os estragos que esta fez e faz a todos os que lidam com a doença bipolar. A minha mãe permitiu, e penso que até gostou. Afinal de contas um doente bipolar tem em sua volta toda a atenção e mais alguma, (todos gostamos de ter a atenção de outros, e muitos fazem o que podem para despertar a sua atenção). Para mim essa é uma das verdades. Dura e crua bem o sei.
Há pouco enquanto tentava incutir algum bom-senso na minha mãe, dei por mim a pensar novamente na falta de esforço dela, mas no que respeita aos pensamentos maus, como lhe chamamos. Apesar de questionar se os pensamentos maus estão com ela ou não (parte das vezes sim, outras tantas partes não), questiono a falta de vontade para enxotá-los e pensar em outra coisa (nem que pense na lógica da batata frita), questiono-me sobre a acomodação,questiono a falta de vontade que por vezes toma conta dela, a quase inexistência de revolta, a força, a luta.
Questiono-me sobre quase tudo.

E quando me observo ao espelho questiono-me sobre tanta coisa, penso e volto a pensar. Revolto-me, não me conformo, não me submeto, não me acomodo.Nem com a doença da minha mãe nem com a minha depressão que se encontra quieta e sossegada.
Mas vejo-me ao espelho e com 31 anos e mais qualquer coisa questiono-me sobre a minha infância, a adolescência, o ser jovem adulta e agora o adulta como deve ser. Questiono-me onde esses tempos estão, procuro-os, encontro-os e observo-os. Medito sobre eles e questiono-me sobre o que poderia ter sido, o que é no presente e tento antever um futuro. Vejo-me ao espelho e por vezes sinto-me exausta, cansada, sem ponto de viragem. Penso no futuro e digo mentalmente "ora bolas para isto."
E nestes momentos que me vejo ao espelho pergunto-me muitas vezes sobre o que está reservado para o futuro, o que me está destinado, se encontra pré-definido. Pergunto-me onde ficaram as metas dos 30 anos porque nenhuma se cumpriu, se tenho um mau karma, se sou a reencarnação de algo mau. Tento em vão adivinhar o que destino me escreveu.
Olho para o espelho e penso que muitas e muitas vezes estou só na multidão, que tento remar num barco de papel contra a maré, penso no porquê de ser eu e não outra pessoa. Penso no até quando os meus ombros aguentam, como se têm aguentado.
Volto a olhar e vou pensando, questionado, considerando, revoltando.
E vou sorrindo de vez em quando, penso que apesar de tudo ainda consigo sorrir.Mas até quando?


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