Hora do Vitinho (144)

quarta-feira, setembro 05, 2012




Minha querida, se soubesses! Lembras-te da canção do Zé Mário? “O que eu andei p’ra aqui chegar…”. Foi quase isso. Um caminho longo e penoso, mas fi-lo parado. Três anos vivendo como um autómato cinzento - o que nem é difícil, tantos o fazem… -, apenas a memória a cores fortes. Porque à noite, em casa, no escuro, punha os auscultadores e pintava-nos obsessivamente com a música por moldura. E os quadros amontoavam-se na minha cabeça, tão límpidos como o génio agarotado do teu querido Mozart.

Que ouvias em altos berros! Ainda tinha o chaveco e ao fim da tarde, quando te ia buscar, das janelas escancaradas jorrava a Flauta Mágica, inundando a floreira e as plantas, sedentas e cultas. Tocava à campainha, a voz no intercomunicador, riso escondido, “desço ou ainda sobes?”. O ainda era tão prometedor…; “subo”. O olhar maroto, “estás com muita fome?”. Às vezes. A de ti, pelo contrário, gemia sempre alto nas entranhas, à medida que o crepúsculo da sala afagava esse andar de mulher madura, cruel de tão lenta, sabendo-me na sombra maravilhada dos seus passos. O rodopio gaiato, que só não fazia adejar a saia porque ela se agarrava, teimosa, às ancas. Enquanto, mais livres, duas coxas de luto alegre lhe fugiam, elegantes, rumo ao chão. “Vai daí…?”. O sorriso, de tão aberto, substituía convite de mãos ou boca. E tu à espera, maliciosa; eu a custo segurando as rédeas do desejo, toda a pressa me tornaria culpado e vítima de crime aceitável nos garotos mas assassino em quem já desce a outra encosta dos anos. Seria como ter pressa de chegar ao último verso de um poema... A cabeça inclinada para trás, o cabelo em liberdade pelo chão, o pescoço longo, arqueado por solidariedade com os rins e à mercê da minha língua, escondendo gemidos que acabavam por se escapar, para meu alívio e orgulho infantis. Botão a botão, até os dedos se perderem por montes e vales, os teus por perto, às vezes ensinando-lhes o caminho, crispados ao anúncio da carícia desejada; e partindo, ligeiros, a libertar-me também de prisões o corpo, que se juntava à nudez completa e agradecida que vestia a alma. O requebro da cintura e a saia, como por milagre, na alcatifa, entre nós e a lareira, apagada por inveja do fogo a seu lado. Meias, rendas, os sapatos altos com tiras que suportam os pés das mulheres sem os vestir, tudo se juntava à saia com lentidão suave, sem momentos penosos de atrapalhação canhestra; como se já tivéssemos nascido entrelaçados. As palavras tontas. A que só respondias, com alegre vergonha, quando afundavas em mim lábios e dentes. Uma vez, de tão juntos no acorde, sussurrámos “fala comigo” ao mesmo tempo e ainda sorrimos, antes de inventar diálogo obsceno noutras circunstâncias, mas sagrado quando o desejo esfarrapa as regras que ordenam os dias tristes e as cabeças normalizadas. A explosão que orlava as testas de suor e fazia apetecer o colo do outro. (Bom sinal!, a meiguice nem sempre acompanha o espasmo.) A tua mão distraída, passeando pelo meu peito, cheio de um estranho cansaço, juvenil e impaciente, “estou de rastos e quero mais”.

Será isso o amor?

O silêncio. Até me beijares ao de leve e te escapulires por momentos, para reapareceres tão fresca como antes, “cavalheiro, já abusou de mim, agora leve-me a jantar”. A carripana transfigurada pela conversa prazenteira, a tua ópera preferida no compacto, a eterna hesitação sobre restaurante primeiro e ementa depois. O olhar carinhoso dos empregados das minhas tascas de sempre, teus fãs incondicionais, prontos a franzir o cenho quando me viam chegar sozinho, “a senhora não vem?”. A rua e as noites húmidas do Porto, essa garrida forma de me enfiares o braço que trazia recordações de férias, quando atalhavas os meus protestos preguiçosos e exigias que te mostrasse o mundo, “só desisti das minhas queridas praias alentejanas porque prometeste fazer de mim uma rapariga culta”. O desvio, no caminho do regresso, para uma visita a amigos com beijo prometido há meses. Enterrado no sofá, bebia a golos avarentos o fascínio pelo teu modo preguiçoso de cruzar as pernas, acender um cigarro, sorrir. Com os olhos procuravas os meus, através de sala e conversas, carinho mudo. Quando, a alguma anedota minha mais desbragada, alguém risonhamente se te queixava, fazias um gesto de impotência, “os homens são todos assim”, mas perdoavas ao teu.

Será isso o amor?

Chegado a tua casa, simplesmente ficar. Ver-te o gozo em último cigarro e meia dúzia de bolachas, pecavas com a consciência tranquila de quem decidiu viver a vida e não prolongá-la a todo o custo. O quarto impecável, envergonhando o meu, órfão no outro extremo da cidade. A figura esguia recortada na porta, “fecho a janela?”. Ainda e sempre os códigos, o “não” anunciava o triunfo do desejo sobre as horas, eu pasmava com o adolescente ressuscitado dentro de mim. Um sexo, como direi?, gentil, mas não menos intenso. A conversa adormecendo e nós com ela; abraçados. Sempre fui o terror dos lençóis e a delícia dos psicanalistas, sonhos terríficos abanando-me, e no entanto dava comigo, manhã cedo, enroscado à tua volta, na mesma posição em que segredara “dorme bem”. E sobretudo sem o movimento de repulsa que os corpos errados despertam nos acordares surpresos que se seguem a noites demasiado optimistas, às vezes queremos dormir com uma pessoa, mas não partilhar o sono com ela. Passara por isso antes, é sinistro ter mulher adormecida junto a nós e pensar “o que estou aqui a fazer?”. O pequeno almoço que me ensinaste a apreciar. Sumo de laranja, compota, o pão favorito que guardavas no congelador, e eu sem medo de fazer batota, inventando-te defeitos que me libertassem. Pelo contrário!, seguindo a fronteira entre o roupão e o teu peito com um frémito aprovador dentro do meu, quando dizia “até logo” era exactamente isso que pensava, “volto logo e vai ser bom; tudo”.

Será isso o amor?

Talvez, quem sabe? Por que não te perguntei? Decidias o rótulo, se dissesses amor ficava assim decretado, as mulheres sabem mais dessas coisas. Teria feito diferença? Estaríamos ainda juntos? Bem vês, quando pediste para discutir o futuro, desejei muito que estivesse cheio daquele presente. Tu com outros planos, expuseste-os com tremenda clareza, antes de deixares cair um “se verdadeiramente gostas de mim…” que soava a ameaça implorada. Vivermos juntos… Será isso o amor ou uma forma de amor que ponha outras em perigo?

Eu não tinha a certeza, mas como advogado já vira muita coisa. As pessoas esbarram umas nas outras constantemente e rilham, rilham, os amantes transformam-se em animais domésticos, vivendo ao ritmo das telenovelas e do futebol. Um dia a saudade do que foram pousa num colega do trabalho que sente o mesmo e acabam no meu escritório, convencidos de que a felicidade os espera no próximo “sim”, laico ou profano; acontece tudo outra vez. Ou não!, verdade é que eu tinha um medo enorme de encurtar as pequenas distâncias que me faziam correr para ti, sou um bicho instável, receio tanto o abandono como o sufoco. Bolinei com palavras sinuosas. Tu em silêncio dorido, eu sentindo-o como acusador. Fechados, cada um em sua concha, paranóicos e mal amados, dissemos adeus com um pretexto ignóbil que não recordo, mas foi o silêncio ressentido a liquidar-nos. A solidão. Outras mulheres, ignorantes do pano de fundo sobre o qual se moviam; inocentes. O sexo mecânico. A culpa por nem culpa sentir, apenas uma saudade imensa da tua silhueta na porta, “fecho a janela?”. Será isso o amor?

Eis-nos aqui. Domingo de sol, passeio junto ao mar, esses olhos azuis que o desejo nublava fitam-me transparentes, agressivos de tão risonhos, “como estás?”. Como estou? E tu que achas, vendo-te assim acompanhada? Ele tem bom aspecto, sorriso franco, nada indica ciúme de paixão mal resolvida da tua parte, sente-se seguro. Esqueceste-me. Pior!, já és minha amiga. Pronto, querida, vou ser politicamente correcto, “bem”. O tempo, o amigo comum que encontraste e me acha cansado, a etiqueta, “este é o…”. Que interessa o nome?, é o teu homem, “muito prazer”. Ele sorri, sabe que não sinto a frase, mas compreende, afinal sou o tipo que ficou sem a mulher que ele não dispensa, “muito prazer”. Um silêncio constrangido entre os dois que resolves com à-vontade, “foi bom ver-te”. Era necessário humilhar-me tanto? Uma vontade imensa de te abanar – “sou eu, lembras-te?, tinhas a certeza que era o amor da tua vida…” -, acorda!, ainda podemos… Os dois afastando-se, o braço dele sobre os teus ombros, o segredo ao ouvido e esse cabelo, onde me perdia, volteando ao ritmo da gargalhada. Serias incapaz da chacota a meu respeito, é outra a razão, simples e infernal - estás feliz. E uma parte de mim, ainda tímida, quase clandestina, deixa cair os braços. Reconhece derrota e culpa, fica grata pelo que vivemos e murmura um “boa sorte” que todo o resto do que sou fita horrorizado.

Será isto, finalmente, o amor?




Julio Machado Vaz - Estes Difíceis Amores

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