domingo, março 04, 2018

Sobre os filtros


Esta escrita deriva de um comentário que fiz num post de facebook.
Num post que deriva sobre os "testes" que mostram como fica a nossa a aparência se fôssemos capas de revistas ou estrelas de Hollywood. O comentar a plasticidade da imagem remeteu-me desde logo para os filtros de cores e para as  "beauty faces" com que somos confrontados no momento em que abrimos as nossas páginas de facebook, e contas de instagram, onde pululam imagens com cores brilhantes e vibrantes...Sorrisos tão perfeitos, juntamente com o olhos e a face numa perfeita simbiose com a câmara. Tudo isto numa ânsia de mostrar um mundo perfeito, uma pessoa perfeita, e quando entramos no quotidiano, a casa perfeita, o fim-de-semana perfeito, as férias de sonho (e perfeitas), e, a refeição perfeita e perfeitamente alinhada num degradé de diferentes cores e texturas.
Pessoalmente, e com as excepções para o filtro básico, o que ajusta o essencial da imagem, não uso filtros. Assim como não uso "beauty faces", bem como não sei como me enquadrar com a câmara para fazer a imagem perfeita.
Nas imagens, e bem como no dia, no espaço e no tempo, não maquilho ou mascaro. Escolhi apenas fazer o ajuste básico e se for necessário. E o mesmo se aplica ao "beauty mode/face". Não apago rugas, nem ajusto o pormenor de intensificar a intensidade do olhar, ou de branquear o sorriso. Não procuro mostrar a perfeição.
Aliás, creio que essa procura e ânsia de mostrar a perfeição nos torna somente em autómotos: tornamo-nos iguais, somos iguais, e pensamos de forma igual.
Tudo isto para a vã tentativa de plasmar ao outro uma aparente felicidade e perfeição, quando a verdadeira imagem é baça, desenquadrada, imperfeita, mas real. Acima de tudo real.
As pessoas tentam tanto mostrar a imagem de felicidade e de perfeição, que se esquecem delas mesma, e assim se anulam, tornando-se em meros autómatos.

Ao som de uma bossa nova

A escrita liberta.

Liberta especialmente quando conseguimos abrir a alma (ou parte dela), e, colocamos num papel o que temos aprisionado dentro nós.

Nunca fui boa com as palavras na forma falada. As palavras na forma falada têm o dom costumeiro de me falharem. Ou talvez não me falhem, mas falharei eu.

Em contrapartida, creio ser melhor nos gestos. Creio conseguir pôr nos gestos e nas coisas mas simples do dia, aquilo que não consigo pôr na palavra falada.

A palavra, essa, não é pensada ou pré-concebida. É sentida. É tudo. E é nada. É escrita com alma, com o coração. Somente eles bastam: a alma e o coração.

E assim, sou eu, apenas eu. Nada mais, apenas eu.

E hoje, aqui escrevo. Escrevo porque sim. Apenas, porque sim.
© Brainstorming
Maira Gall