Saúde mental

sexta-feira, abril 29, 2011

Diz a Directora de Psiquiatria do Hospital São Francisco Xavier sobre o fecho do Miguel Bombarda e sobre a Saúde Mental em Portugal:


"(...)Em Portugal estamos muito longe de ter uma rede de tratamento na comunidade que ofereça cuidados adequados aos doentes mentais graves.Uma reforma dos serviços psiquiátricos necessita de um orçamento robusto para a criação dessa essa rede e ao longo destes 40 anos e de outros planos falhados de reforma da saúde mental, essa disponibilidade orçamental nunca existiu.Sem orçamento e sem recursos não há reforma.Das oito estruturas que devem existir na comunidade em alternativa ao Hospital Psiquiatrico, Portugal implementou apenas de 3 desses recursos e em muitos locais até menos.(...)Para onde foram os doentes asilados neste hospital e como foi efectuado esse processo de recolocação, sabendo-se que todos os estudos aponta para a necessidade de um trabalho rigoroso de avaliação das necessidades destes doentes, muitos deles já idosos e sem qualquer capacidade para voltar a família ou mesmo para serem reintegrados socialmente?Há relatos de transporte de doentes em carrinhas, durante semanas, transferidos do hospital Miguel Bombarda para o Hospital Júlio de Matos, provavelmente para viverem em condições idênticas ou piores, ao arrepio de todas as recomendações internacionais.Qual a taxa de morbilidade ,mortalidade e de suicídios nestes doentes do hospital Miguel Bombarda, transferidos compulsivamente para outros locais?(...)Num pais que esta mergulhado numa intensa crise social e económica, geradora de mais vulnerabilidade psicológica indutora de descompensações graves em pessoas com doença mental, não deixa de ser estranha a apressada saída do coordenador da saúde mental que liderava uma reforma, e o fecho de um Hospital Psiquiátrico, com património arquitectónico e um espolio importantíssimo, também totalmente negligenciado neste processo.Em nome da psiquiatria portuguesa tantas vezes muito avançada para a época quer pela moderna legislação dos anos 60, quer pela prática clínica a par da correntes cientificas europeias e sobretudo em nome dos doentes mentais graves silenciados pela natureza da sua doença, os responsáveis pela actual reforma têm de esclarecer publicamente qual o exacto ponto de situação da reforma psiquiátrica, com dados concretos, quais as estruturas que substituíram o Hospital Miguel Bombarda, o que foi feito com os doentes deste hospital, com os técnicos e entre muitos outros dados, o que planeiam fazer com o espolio do Hospital Miguel Bombarda.Em suma, como pensam organizar os serviços de psiquiatria, sem dinheiro, sem recursos, sem a mobilização dos técnicos e com um numero crescente de patologia mental e de doentes a precisarem de tratamento!"



A Lei Nacional da Saúde Mental não protege nem doentes, nem familiares, nem a comunidade.
Como é que eu sei? Porque já a li, e por a ter lido, posso dizer que neste país para um doente mental ser internado e tratado de forma compulsiva tem que pôr em risco a sua vida ou a dos que a rodeiam. Depois vem toda a burocracia à portuguesa. E o mesmo acontece com a medicação compulsiva. Pode-se "obrigar" um doente a tomar a medicação, mas tem que estar tudo num pé de vento.


Falam em fechar os hospitais psiquiátricos para os doentes mentais viverem em sociedade, e criar uma rede de cuidados continuados nos hospitais distritais que também servem para internamentos de curta duração. E onde é que os hospitais distritais têm essas infra-estruturas??Não têm digo eu.Não têm nem infra-estruturas, nem camas, nem psiquiatras e enfermeiros em número suficiente para que o doente mental seja dignamente acompanhado tanto durante o internamento como cá fora. Essas ditas unidades não passam de um andar dividido em duas aulas, e nessas alas encontram-se pessoas das mais diversas idades, estratos sociais e patologias mais crónicas, menos crónicas, mais ou menos graves.Encontramos um esquizofrénico a dividir um quarto com um depressivo e um psicótico. As nossas psiquiatrias são o que eu chamo um regabofe, tudo ao molho e fé em Deus, com o pensamento de "vamos estabilizar a pessoa rápido para a mandar para casa, porque as camas nos corredores estão ocupadas,e há mais gente que precisa de se tratar".


Parece duro?É a nossa realidade.Vão fechar os hospitais psiquiátricos públicos, para que os doentes possam ser integrados em sociedade, e tenham acesso à suposta rede de cuidados continuados que não têm capacidade para fazerem face a tantos doentes. Como é que fazer com que o esquizofrénico que está internado há dezenas de anos, cuja família não existe ou não se interessa? Vão comprar-lhe um apartamento e dizer "agora safa-te porque estás no meio da selva???"
E quando são dados os máximos cuidados a nível psiquiátrico a um doente e falham os cuidados sociais?Falham porque a família não pode deixar de viver, falham porque a família não tem capacidades financeiras para colocar o doente numa casa de saúde? 
O que é que fazemos a esses doentes??
O que é que fazemos a nós quando deixamos de conseguir cuidar dos doentes e de nós mesmos??
Colocamos os doentes nas ditas unidades de cuidados continuados?
E depois o que se faz??


O que fazer a estes doentes???
Como é que vão ser integrados??
Não têm a noção de que ainda vão desestruturar ainda mais a vida destas pessoas??

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