domingo, agosto 28, 2011

Explicações

Como é que se explica a uma doente bipolar, pré-demente e com mau feitio que tem que partilhar a filha com outra pessoa????
É falar com uma criança grande, e dar tempo para entender e esperar que entenda...
Oh caramba...desta é que eu não estava à espera.

quinta-feira, agosto 25, 2011

Tempo



To Everything (Turn, Turn, Turn)
There is a season (Turn, Turn, Turn)
And a time to every purpose, under Heaven

A time to be born, a time to die
A time to plant, a time to reap
A time to kill, a time to heal
A time to laugh, a time to weep

To Everything (Turn, Turn, Turn)
There is a season (Turn, Turn, Turn)
And a time to every purpose, under Heaven

A time to build up,a time to break down
A time to dance, a time to mourn
A time to cast away stones, a time to gather stones together

To Everything (Turn, Turn, Turn)
There is a season (Turn, Turn, Turn)
And a time to every purpose, under Heaven

A time of love, a time of hate
A time of war, a time of peace
A time you may embrace, a time to refrain from embracing

To Everything (Turn, Turn, Turn)
There is a season (Turn, Turn, Turn)
And a time to every purpose, under Heaven

A time to gain, a time to lose
A time to rend, a time to sew
A time for love, a time for hate
A time for peace, I swear it's not too late
Segundo li, com excepção do último verso toda a  letra da música foi retirada do Antigo Testamento do Livro de Eclesiastes. Letra por letra, palavra por palavra. 

terça-feira, agosto 23, 2011

Night Air

É na noite que se escondem e se descobrem os maiores e profundos segredos.
É na noite que nos revelamos e nos escondemos de nós mesmos e dos outros que nos rodeiam.
É na noite que nos ouvimos, que nos silenciamos.
É na noite que os nossos pensamentos ganham vida, que os pensamentos falam, que os sentimentos se consomem.
É na noite que se consomem as verdades.
É na noite a altura em que falamos connosco, com o nosso eu, debatemos e concluimos o nosso dia, nos afirmamos ou nos reafirmamos como pessoas.
É na noite que o nosso Eu toma ser e toma forma e se transforma.

À noite todos os gatos são pardos.










sábado, agosto 20, 2011

A propósito do calor

O tempo está abafado esquisito e estúpido,e eu não gosto. A minha mãe também não gosta.
A minha mãe tem tanto medo que aconteça alguma catástrofe que originou esta conversa:

Oh mãe.Raio de tempo.Está mesmo abafado.Não se está bem em lado nenhum.
Ai filha.Está mesmo. E as moscas?Tenho aqui tanta mosca!!!
Oh mãe estão moles.
Não gosto deste tempo.Ainda vem para aí um tremor de terra.
Oh mãe, deixa lá isso.
Tenho medo.Esta noite vou dormir contigo.
Ai não vais não.
Não vou porquê???
Ora porque está muito calor, e tu ressonas.
Então vou dormir para a sala.
Não vais não.
Não vou?
Claro que não.A sala é mesmo ao lado do meu quarto.Ouço-te à mesma.
Mas eu quero, tenho medo que aconteça alguma coisa.
Se fores para a sala ou para a minha cama, podes ter a certeza de que eu vou para tua.
E se acontecer alguma coisa?Estou sozinha...
Se acontecer alguma coisa, tanto faz que estejas sozinha ou não.Acontece e pronto.

Raio da criança grande....

Are you kidding????

"Ah e tal, coitada porque x e y e w z e por aí adiante. Tens que entender."
Eu entendo muita coisa, a sério que entendo, contudo existem muitas outras que por mais que tente nunca vou compreender e assimilar. Não faz o meu feitio.
Uma das coisas que não entendo, são as pessoas que se vitimizam porque têm o pai, a mãe, o avô, a avó, os tios, o cão, o gato e o piriquito com alguma doença há muito tempo. Não entendo e não vou entender. Simplesmente não acho que essas coisas sirvam de desculpa para certos e determinados actos. Não é correcto usarmos os problemas para sermos vistos como uns pobres coitados que não têm sorte nenhuma, e muito azar. Eu não uso os meus para isso, não era capaz. Aliás as minhas coisas não me enfraqueceram mas sim fortaleceram, e só num momento de grande necessidade, mesmo grande, enorme  e gigantesca é que ponho as cartas na mesa e digo "passa-se tal."  É por isso estou assim, assado, cozido, frito e grelhado.
E por isso e só por isso não entendo quem os usa, quem quer tirar e usar essas coisas em proveito próprio, para se vitimizarem e para que tenham pena deles.
Desculpem, mas essas coisas comigo não encaixam. Essas coisas e a história do coitadinho para aqui e coitadinho para ali.

segunda-feira, agosto 15, 2011

God bless

God bless chill-out, lounge, acid jazz, nu jazz, cafe del mar e afins.
É relaxante, verdadeiramente relaxante. E eu preciso muito, muito, muito, muito de relaxar.

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Parece muito mexido para relaxar???
Fechem os olhos e deixem-se se levar...

PS:que aconselham a minha pessoa a ouvir nesta miscelânea de estilos??

Momento insano do dia (76)

É música popular portuguesa sim senhora, mas "façam atenção" no que o Nel Monteiro diz:


"Puta Vida Merda Cagalhões"

"Por não ter condições de vida
E ver sinais de mal a pior
Desculpem a linguagem
Mas não tenho outra melhor
Desculpem a linguagem
Mas não tenho outra melhor
É muito duro ser pobre
E mais duro é com certeza
Um pobre ser toda a vida
A lixeira da nobreza
Um pobre ser toda a vida
A lixeira da nobreza

Puta vida merda cagalhões
Porque será que tem que ser assim?
Os casebres e as mansões
Desigualdade sem ter fim

Puta vida merda cagalhões
Até parece que sou filho do azar
Pois até o Euro Milhões
Só merda me está a dar

A Expo 98
Tanta nota ali perdida
E tantos pobres pedintes
Sem terem nada na vida
E tantos pobres pedintes
Sem terem nada na vida
Não é defeito não ter
Nem para cagar, um penico
Defeito é ir tirar
Ao pobre para dar ao rico
Defeito é ir tirar
Ao pobre para dar ao rico

Puta vida merda cagalhões
Porque será que tem que ser assim?
Os casebres e as mansões
Desigualdade sem ter fim

Puta vida merda cagalhões
Até parece que sou filho do azar
Pois até o Euro Milhões
Só merda me está a dar

Estádios de futebol
Oferta de mão beijada
A quem já ganha milhões
E milhões sem ganhar nada
Ser pobre não é defeito
E ser rico também não
Defeito é ver um pobre
E não lhe dar um tostão
Defeito é ver um pobre
E não lhe dar um tostão

Puta vida merda cagalhões
Porque será que tem que ser assim?
Os casebres e as mansões
Desigualdade sem ter fim

Puta vida merda cagalhões
Até parece que sou filho do azar
Pois até o Euro Milhões
Só merda me está a dar

Aquela Casa da Música
Que não tem nada no Porto
Um insulto a quem não tem
Um minuto de conforto
Um insulto a quem não tem
Um minuto de conforto
Os vintes e dois mil milhões
Todos sabem para onde vão
Para a Ota e TGV
E não vai sobrar tostão
Para a Ota e TGV
E não vai sobrar tostão

Puta vida merda cagalhões
Porque será que tem que ser assim?
Os casebres e as mansões
Desigualdade sem ter fim

Puta vida merda cagalhões
Até parece que sou filho do azar
Pois até o Euro Milhões
Só merda me está a dar"

domingo, agosto 14, 2011

look

Tem um olhar tão forte e tão intenso que eu sinto que estou a ser observada, que estou  a ser lida, que estou a ser penetrada de um lado ao outro.
E eu gosto destes olhares, são olhares que olham para além do olhar, que lêem, que querem descobrir ou encontrar algo,ávidos de tudo.

sábado, agosto 13, 2011

Perícia

Montar uma cambalhota é fácil.
Fazer uma cambalhota exige alguma perícia se a queremos fazer bem.
No estabeleicmento hoteleiro temos cambalhotas que fazem de sofá e sim de camas.Umas cambalhotas são mais novas, outras mais antigas, umas de facto são mais fáceis de montar do que outras, mas são todas uma chatice de se fazer.
Basicamente monto uma cambalhota das novas em segundos, as velhas já demoram um pouco mais a montar, são mais dificies, exigem mais esforço de braços para serem montadas. As novas é só puxar e está montada a combalhota, depois encolhe-se e temos um sofá. Nas camabalhotas mais velhas a espécie de estrado que tem que ser puxado para montar bem a cambalhota.
Fácil será montar, menos fácil será fazer, e nós em Agosto montamos e fazemos muitas cambalhotas. E o acto de fazer exige, como disse alguma perícia:
A perícia de pôr a forra, os lençóis, a colcha e entalar tudo como se de uma cama se tratasse. E ainda deixar a roupa da cambalhota o mais direitinha possível, bem como certificar-nos de que está tudo o mais liso possível.
Montar é fácil, fazer já exige algum cuidado com a coisa.

segunda-feira, agosto 08, 2011

opostos

"Dizem que os opostos se atraem"
"É verdade."
"Possivelmente completam-se".
"Provavelmente."
"Achas?"
"Provavelmente."
"E tu achas?"
"Provavelmente."

quinta-feira, agosto 04, 2011

Brincadeiras

Esta história de os deputados do PSD andarem a telefonar para o INEM, para contar o tempo de resposta, lembra-me apenas os míudos. Aqueles miudos que não têm mais nada que fazer, e que resolvem telefonar para um qualquer número de telefone só porque lhes apetece.
Os senhores deputados não sabem que estão a fazer chamadas falsas???Ou acham que o estatuto de deputados os coloca acima da lei???
É que esse tempo gasto, bem como os outros segundos gastos por malta que não tem mais nada do que telefonar para o 112, só porque é fixe, é ilícito. Basicamente é ilegal.Não se pode fazer, é crime.
Crianças pá....
Raio dos miúdos...
Não tem mais nada que fazer???
Irra!!!!

quarta-feira, agosto 03, 2011

Nota solta

Não morri, estou viva e ainda estou de boa saúde. Pelo menos penso que sim.
Não ando com tempo e confesso paciência para vos visitar e vos ler com a calma necessária.Não tenho paciência nem feitio para passar pelos vossos estaminés e deixar um comentário de ocasião.
Portanto, aqui não se está de férias, mas está-se a trabalhar sem descanso.
Anda-se em piloto automático, dizem-se parvoíces, vêem-se as horas passarem,e perpassa pela cabeça algo como "ainda temos isto para fazer!!!"Estamos no dia tal e ainda faltam...." Basicamente eu e as outras pessoas somos umas formigas que queremos ter "que comer no Inverno". Basicamente a malta quer manter o "trabalho funcional", para não viver à conta do Estado.
Nisto, vem à cabeça o Setembro, mais propriamente o meio do mês onde se almeja folga, descanso e jantar fora.
Contudo, I feel good!!!!Não só porque o Centrum ajuda a que o esqueleto se mexa, mas porque as minhas horas numa esplanada e respectivo acréscimo fazem bem, muito bem. E por isso I feel good.

Posto isto, vou continuar a tentar fazer o milagre da multiplicação das Inezes no trabalho, e o resto....o tempo o dirá. Nos entretantos vai-se ouvindo "nunca mais é Setembro!!!!", e gaba-se a perspicácia da companhia da esplanada que diz de quando em vez "És nervosa!!Tens que te acalmar!!"



segunda-feira, agosto 01, 2011

Fidalgos, queques e betinhos





Os Portugueses têm algo de figadal contra todos os que tenham algo de fidalgal. Como as crianças, confundem muito a fidalguia, que é uma simples condição social, com a aristocracia, que é um sistema político em que o poder pertence aos nobres. E, no entanto, como diria Chesterton, não há mérito automático em ser fidalgo, nem vergonha em pertencer decididamente (como eu) à ralé.

Em Portugal a nossa civilização deve muito a duas classes minoritárias. Ambas são gente simples, com posses reduzidas e educação informal. Refiro-me, obviamente, à plebe e à nobreza. O pretensiosismo dominante, seja proletário ou possidónio, seja triunfalista ou disfarçado, encontra-se nas classes restantes, que constituem a grande maioria da população. Mas um pastor ou um pescador é tão senhor como um fidalgo. Como ele, vê o mundo de uma maneira antiga, em que cada coisa tem o seu lugar, o seu sentido e o seu valor. O pior é o operariado, a pequena, média e alta burguesia: enfim, quase toda a gente. É esta gente que se preocupa com a classe a que pertence. Enquanto o pastor e o visconde se ocupam, os outros preocupam-se. Os primeiros não querem ser o que não são. Os outros adorariam. Os primeiros aceitam o que são, sem vaidade. Os outros têm sempre um bocadinho de vergonha e por isso disfarçam, parecendo vaidosos.

Quem é fidalgo e quem é que quer ser?


Em Portugal existem três classes distintas. Há a classe dos fidalgos – os meninos “bem”. E depois há duas classes falsamente afidalgadas. Há os meninos “queques”, filhos de pais “queques” mas com avós que não. E há os “betinhos”, filhos de pais que, simplesmente, não.

O “menino bem” é aquele que não sabe muito bem em que século começou a fortuna da família. Geralmente é pobre, com a consolação irritante do passado rico. É muito bem-educado e jamais se lembraria de lembrar aos outros que é “bem”. O “queque” sabe perfeitamente que foi o avô ou o bisavô que abriu a fábrica ou a loja que enriqueceu a família. Geralmente é bastante rico. Embora tenha frequentado os colégios correctos, tem sempre um enorme complexo de inferioridade em relação aos “meninos bem”, o que o leva a fazer-se mais do que é. De bom grado trocaria grande parte da sua fortuna pela antiguidade e pelo prestígio de um bom título.

Finalmente, o “betinho” é aquele cujo pai nasceu pobre, indesmentivelmente operário. O betinho procura dar-se, em vão, com queques e meninos bem, mas a sua educação é formal e institucional, não familiar. É o mais rico de todos, mas é também o mais envergonhado. O betinho por excelência é aquele que não suporta a vergonha de um pai nascido entre o povaréu. Evita apresentá-lo aos amigos. Tudo faz para ocultar a sua proximidade genealógica ao vulgacho.

Tanto o queque como o betinho são o resultado de self-made man, homens que se levantaram pelas próprias mãos, quantas vezes rudes e calejadas e tudo o mais. O menino bem, em contrapartida, nem sequer compreende o conceito de self-made man. Porque é que um homem se há-de “fazer a si próprio” quando houve sempre pessoal, criados e caseiros, para se ocupar dessas tarefas desagradáveis?

Distinguem-se em tudo. A falar, por exemplo. O menino bem usa todas as formas de tratamento, desde “a menina” – A menina vai levar o Jorge ou vai sozinha no Volvo? – até ao “Psst, tu que fumas”.

O queque, por ser menos seguro, trata toda a gente por “Você”, incluindo os criados e as crianças (o que não é correcto, mas parece). O betinho, a esse respeito, está em absoluta autogestão. Tenta tratar mal aqueles que considera inferiores (demasiado mal) e bem aqueles que considera superiores (demasiado bem). No fundo é um labrego engraxado que julga sinal de aristocracia dizer os erres como se fossem guês.

O que caracteriza o menino bem é o seu total à vontade no mundo. Nunca se enerva, nunca hesita, nunca está muito preocupado. Haja ou não dinheiro. O menino bem dá-se bem com a pobreza e encara o sobe e desce da sorte com a naturalidade com que aceita a circulação do sangue pelas veias. Por isso dá-se bem com toda a gente. Nada tem a perder ou a ganhar.

Os queques não são assim. Pensam que nasceram para o brilho baço do privilégio. Vivem obcecados pelo dinheiro já que é o dinheiro que lhes permite comprar todos aqueles adereços (relógios Rolex, automóveis Porsche) que consideram indispensáveis ao seu estatuto social. Um menino bem, em contrapartida, nunca usa relógio – porque é que há-de querer saber as horas? O queque só se dá com pessoas “do seu meio”. Enquanto o menino bem tem aquele rapport feudal com caseiros, varinas e pedreiros, que constitui uma forma multissecular de intimidade, o queque aflige-se em “manter as distâncias” com esse gentião, precisamente por serem tão curtas.

O betinho é uma pilha de nervos. Ninguém o respeita. Dá-se quase exclusivamente com outros betinhos, do mesmo ramo de importação de electrodomésticos ou da construção civil. Não gostam de sair da sua zona. Os de Lisboa, por exemplo, só quando há uma emergência é que saem do Restelo. Ao contrário dos queques, evitam falar em dinheiro porque se sentem comprometidos. Esforçam-se mais por serem meninos bem do que os queques, que julgam já serem meninos bem. Andam sempre vestidos pelas lojas mais tradicionais (camisa aos quadradinhos, casaquinho de malha, jeans novinhos e mocassins pretos com correiazinha de prata ou berloques de cabedal), ao passo que os queques compram roupa mais moderna na boutique da moda. Escusado será dizer que os autênticos meninos bem andam sempre mal vestidos, com a camisola velha do pai e as calças coçadas do irmão mais velho. A única diferença é que as camisolas e as calças que têm em casa duram cem anos. Os avós já compram camisas a pensar que hão-de servir aos netos. Aliás, os fidalgos são sempre mais forretas que a escória.

No que toca aos hábitos alimentares, os meninos bem comem sempre em casa. Como as famílias são geralmente muito grandes (de resto, como sucede com o populacho), a comida é quase sempre do tipo rancho, ou sempre servida com muito puré de batata.

Os queques estão sempre a almoçar e a jantar fora, em grupos grandes com muitos rapazes e raparigas a exclamar: “Ai, já não há pachorra para o quiche lorraine!” Aqui se denunciam as suas verdadeiras origens sociais. Para um menino bem, comer fora é uma espécie de solução de emergência, quando não dá jeito comer em casa. Para um queque é um prazer.

Nas casas bem, a qualquer hora do dia, há sempre uma refeição a ser servida a um número altamente variável de crianças, primos, criadas, motoristas, tias, etc.

Nas casas queques as refeições variam conforme os convidados. Nas bem são sempre rigorosamente iguais. Os queques têm a mania dos restaurantes – conhecem-nos tão bem como os meninos bem conhecem (e odeiam) as cozinheiras. E os betinhos? Os betinhos tentam evitar as refeições o mais possível. Comem sozinhos em casa (os betinhos tendem a ser filhos únicos) ou levam betinhas a jantar. Porquê? Porque têm a paranóia de serem “descobertos” através dos modos de estar à mesa. Mas, na verdade, só são descobertos pelo seu excesso de boas maneiras. Um betinho à mesa está sempre “rijo”, atento, receoso de tirar uma azeitona por causa do terror de não saber lidar com o caroço. Os queques comportam-se como animais, espetando garfos nas mãos estendidas dos outros, soprando pela palhinha para fazer bolinhas no Sprite e atirando os caroços para martirizar o cocker spaniel. Quanto aos meninos bem, encaram as refeições como uma simples necessidade fisiológica. Comem e calam-se. Falam só para dizer “passa a manteiga” ou “Parece que houve uma revolução popular em Lisboa, passa a manteiga”.

Não são, portanto, os fidalgos que dão mau nome à fidalguia – são os queques e betinhos. Estes cultivam ridiculamente os “brasões” e as “quintas”, fingindo que não gostam de falar nisso. Em contrapartida, nas casas fidalgas, os filhos das criadas experimentam os lápis de cera nos retratos a óleo dos antepassados. E ninguém liga…
Miguel Esteves Cardoso - Os meus problemas
PS: convivo com estas espécies quase diariamente em Agosto, e confirma-se que o texto se mantém actualizado.
© Brainstorming
Maira Gall